domingo, 6 de maio de 2018

E o Lord Jim afundou.

Estávamos trabalhando quando recebi uma mensagem avisando que o Veleiro Lord Jim havia acabado de afundar. Filmei ele garrando, quase batendo em nós, mastro caindo, rebocagem mal feita, mas o fim mesmo, ele não quis que eu mostrasse.

Agora está no fundo, não tão fundo o suficiente para que ele ficasse totalmente submerso, partes do mastro estão aparentes. Foi colocado uma bóia de perigo isolado e veremos se será o suficiente.

Agora, começaram a depená-lo. Fausto disse que quando ele passou pelo furacão no Caribe, na época, a lei era que se um veleiro estivesse afundado e sem um responsável, qualquer um poderia pegar o que quisesse. Não sabemos se a lei continua a mesma no Caribe e se é válida aqui no Brasil, só sei que, qualquer peça de bronze do Lord Jim, deve valer uma boa grana em antiquários, principalmente na Inglaterra, já que o veleiro é Inglês e tem uma história respeitável.

Hoje pela manhã uma pessoa mergulhou devidamente paramentado (até bóia de sinalização usou), deu umas marretadas e arrancou alguma coisa. Foi embora em menos de 20 minutos.

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Lord Jim ainda não virou casa de peixes, mas já está rendendo bons mergulhos no estilo “caça ao tesouro”!

 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Histórias da vida no mar

E aí povo do mar, tudo bom?

Estou escrevendo o livro da nossa viagem de volta ao mundo e dia sim e outro também quase tenho ataques de pânico por me sentir tão perdida com tantas informações. O pior é que sou mentalmente desorganizada e quando tento focar no livro da viagem, a cabeça começa a pensar em um dos outros três livros que rascunhei. É como se fosse uma alto sabotagem, porque escrevo um monte, mas a sensação é de que nada vai para frente.

Na construção do Guruçá Cat, em vários momentos a gente trabalhava por dias em uma peça, mas o trabalho não aparecia, e a gente ia desanimando quando não víamos o resultado do trabalho. Daí Fausto sabiamente pulava para uma outra peça mais simples que ficava pronta rapidinho e o ânimo voltava.

Não estou conseguindo adaptar essa “psicologia” que ele usava na construção para minha situação atual: Perdida, cheia de incertezas, sem saber como me organizar e o que fazer primeiro. Infelizmente não tenho nenhuma “peça” que fique pronta rapidinho. 

Agora por exemplo, abri o computador e ao invés do livro, estou aqui, choramingando para vocês.
Ontem, tentando dormir, porque tem dessa também, estou caindo de sono, mas a cabeça teima em pensar e enquanto eu não descarregar o pensamento, não durmo ou durmo mal.
Ontem, recordei de duas histórias legais que passamos durante todo esse tempo morando a bordo. São tantas histórias, que olhem só, renderia outro livro!

Aprendi a não aceitar convite de qualquer refeição de velejadores solitários. As minhas experiências com velejadores solitários estrangeiros foram de barcos sujos e fedorentos.
Aqui no Brasil somos muito festeiros e adoramos convidar outros velejadores para o nosso barco, mas lá fora não é assim. Principalmente com europeus. Eles são muito reservados, aceitam  prontamente a um convite ao seu barco, mas raramente te convidam de volta. 
Na nossa viagem preferimos nos relacionar com famílias, não temos filhos, mas tínhamos o Faísca, um cachorro, que praticamente nos tornava uma família e nos aproximava das outras. As crianças o adoravam! Contamos nas mãos os veleiros que nos relacionamos de “verdade”, de um ir ao veleiro do outro, mas não sentimos falta nenhuma desse tipo de relacionamento. O nosso propósito era conhecer os lugares o povo, suas culturas e não ficar tentando fazer amizadinha com o vizinho temporário.

Então foram poucos os velejadores solitários que nos relacionamos, amém!
Não vou dizer a nacionalidade de ambos, só para rolar uma curiosidade hehehe

O primeiro morava em um monocasco com a boca bem grande (largo) e uma decoração interessante: Era cheio de almofadas coloridas, tecidos tipo cetim, me fez imaginar um quarto de um sultão, cheio de pompa. Sujo o veleiro não era, mas o cara não gostava de banho e não tinha uma mulher para obrigá-lo a fazê-lo. Ele só tinha duas camisas que se não estivessem bem presas no varal, fugiriam nadando de tão surradas e mal lavadas, ou seja, rolava um cheirinho de urso a bordo (creio que urso seja fedorento).

Dentro do veleiro, ele armou a mesa que estava na forma de cama, alguns veleiros pode-se usar de ambas as formas e colocou uma panela de pressão no centro. Disse que havia aprendido a receita quando passou por Salvador... Pensei: Ai-Meu-Deus!
Quando abriu a panela, quase cai dura. O cara havia feito um tipo de feijoada, que como ele mesmo disse: Na comida baiana não pode faltar cominho e leite de coco né?! Não sei de onde ele tirou isso! Feijoada com leite de coco, Gzuis, como me safo dessa?
Reclamei do calor,  que estava ficando enjoada dentro do monocasco e pedi para comer do lado de fora. Dei uma de atriz, porque olha, fingi que comia tudo e ainda elogiava, só que a minha parte os peixinhos comiam, cada vez que o cara entrava para pegar alguma coisa que eu inventava: Uma faca por favor? Tem guardanapo? Velejador solitário não liga para esses detalhes. Mais difícil do que fingir, era não rir da cara que Fausto fazia cada vez que dava uma garfada. Pela primeira vez achei que Fausto não iria comer alguma coisa. Assim que chegamos em casa Fausto começou a reclamar, enfiava o dedo na guela querendo vomitar. E ele ficou puto quando soube que eu não havia comido nada.
- Bem que achei estranho você tão quieta!

Fausto, não vou mais almoçar ou jantar em nenhum barco de velejador solitário, nem adianta ficar falando na minha orelha...

Até que apareceu um colega que ele não via há anos…

- Não vou, vai você sozinho!

- Você é a minha esposa, quero que ele te conheça nhê, nhê, nhê e a boba aqui cedeu.

Ficamos no cockpit (a varanda do barco). Fausto tomando uma cervejinha e eu uma coca cola, mas já preocupada com o que iria ser servido. Não aguentei e perguntei.
- Pasta com molho foi a resposta. Fiquei mais tranquila, até sentir uma coisinha andar pelo meu braço. Olhei , mas não achei nada. Estava escuro. Coloquei meu braço apoiado na mesa e senti outra coisinha. Olhei e nada! O seu fulano, o senhor pode acender a luz? O cara enrolou e não acendeu. Recolhi meus braços e fiquei quieta. Quando o jantar começou a ser servido, a luz foi acessa e eu nunca havia visto tanta baratinha em um só lugar na vida! Haviam várias correndo pela “casa”. E o velejador agia como se nada estivesse acontecendo... Eu não tenho medo de barata, mas dá nojo comer com um monte delas passeando na sua frente. Pedi licença , peguei meu chinelo no bote e começei a matar as baratas que chegavam perto de mim. Cara de pau por cara de pau né? Daí começei a pensar nas baratas que haviam passado em cima do prato que estava na minha frente, na panela em cima do fogão e fiquei embrulhada. O cara não saia da mesa e não adiantou eu dizer que estava esperando meu prato esfriar (na primeira virada de rosto do velejador iria tudo pra água) que o cara ficava falando: Experimenta, experimenta! Aff, não teve jeito. Coloquei a primeira garfada de espaguete na boca. Puta merda, era pimenta pura! O tal molho era a mistura de várias pimentas. Haaaa vá a merda! Comer pimenta cheia de baratas já era demais para mim. Reclamei pro cara na boa, que era muito apimentado, que eu não comia pimenta e devolvi o prato. O velejador fez uma cara de mendingo chateado saído direto do filme Os Miseráveis, e eu nem tchum! Ele deveria me agradecer por eliminar pelo menos umas 100 baratas do barco dele, isso sim. Hoje, pensando bem, eu deveria ter dado de uma mulher “normal”, ter gritado quando tivesse visto a primeira barata e corrido para o bote. Teria me poupado do climão.

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terça-feira, 3 de abril de 2018

Tenho medo do meu vizinho!

Para quem não sabe, morávamos há anos na praia do Bonfim, aqui em Angra dos Reis e há uns meses nos mudamos para a enseada ao lado, a Praia Grande. Uma praia linda, que recebe muitos turistas e onde fica a sucursal do Iate Clube do Rio de Janeiro.

A quantidade de barcos de todos os tipos e tamanhos aqui é grande, principalmente de veleiros em poitas alugadas. Muito mais em conta do que deixar o veleiro em marinas (pretendo falar sobre isso em um vídeo em breve). Depois de anos “no ferro” ou seja, usando a âncora, passamos a usar uma poita. E como é bom! Na âncora tínhamos que viver de olhos abertos nas previsões do tempo. Com a entrada das frentes frias, nos mudávamos para uma ancoragem mais protegida do vento Sudoeste além dos pirajás que adoravam nos dar sustos.
Essa semana entrou um pirajá a noite. Eu já estava na cama quase dormindo quando o vento começou a assobiar. Automaticamente dei um pulo da cama, até raciocinar: Guta sua orelhuda, você está em uma poita, relaxa! E fui dormir lindamente… Estávamos seguros, ou pelo menos pensávamos que estávamos, bobinhos…

Na praia do Bonfim, tínhamos poucos vizinhos. Um argentino com dois cachorrinhos que choravam de vez em quando e mais nada que incomodasse. Aqui na Praia Grande temos vários bons vizinhos, mas tem um que incomoda, e a muita gente. Infelizmente somos vizinhos “de porta” do Lord Jim, para entender a história desse veleiro CLIQUE AQUI. A história é longa, trágica e o veleiro hoje, abandonado em uma poita. Dizem que como corre um processo na justiça a respeito dele, relatado no link acima, o veleiro está sobre a responsabilidade da Marinha do Brasil. Toda a semana, quando o veleiro, praticamente todo podre se enche de água, um bote da marinha aparece e com a ajuda de uma bomba, retira a água de dentro dele. Também dizem que esse veleiro ainda não afundou porque existem dois tanques de diesel vazios e lacrados a bordo que mantêm sua flutuação. 
O problema é que o veleiro é grande demais  para o espaço da poita que foi colocado. Dependendo do vento e da maré, ele se choca com as outras embarcações ao lado. Já bateu e quebrou duas janelas de um trawler, que não teve a quem reclamar do prejuízo. E nós que achávamos estar longe de qualquer problema quebramos a cara. Cadê o sossego? E o medo dele se soltar da poita e vir para cima da gente?
Paranóia? Não! Foi exatamente o que aconteceu!!!


Domingo passado, dia 25/03/2018 entrou uma ondulação anormal aqui em Angra, não tinha vento forte, mas uma ondulação grande. De alguma forma o Lord Jim se soltou da poita e foi parar no Gurupé de uma escuna ao lado. Com isso um dos mastros de partiu em duas partes e caiu, começou uma chuva de tudo quanto é material podre a cair. Os dois ficaram ali atracados, mas longe da gente. Ligamos para os dois números que estavam disponíveis na escuna de passeio sem sucesso. Ligamos para um amigo que trabalha no Iate Clube que estava sem o bote de apoio aos sócios e não tinha como ajudar. Restou ligar para a marinha pedindo ajuda.
Os barcos ficaram muito tempo se batendo, com a ondulação de lado. Daí a outra escuna de passeio da empresa chegou e começaram as sucessões de erros. Conseguiram retirar o Lord Jim do Gurupé da escuna, mas para onde levá-lo?
Os rapazes na boa vontade, acredito sinceramente nisso, começaram a rebocar o veleiro com a ajuda da escuna. O correto seria o reboque pela proa do veleiro, de preferência com alguém no leme, ou o mesmo no meio, e o veleiro deveria ser levado para longe de todas as outras embarcações, havia espaço para isso e seria o caminho mais fácil, mas não. O reboque foi feito pela popa. Um dos rapazes ficou pendurado na popa do veleiro de frente a um cabo relativamente fino para aquela operação, exposto ao risco do cabo estourar e ele ser ricocheteado. Daí chegou a marinha e pensamos: Ufa, agora tudo será resolvido!

Como somos bobinhos Gzuis!

Que nada, o bote da marinha ficou pra lá e pra cá, não ouvimos orientação nenhuma por parte deles aos meninos das escunas. Uma operação de risco como aquela, feita a base do improviso. Arranjaram uma poita e o veleiro, rebocado pela popa, provavelmente com o leme virado de qualquer maneira, tudo sem nenhuma organização prévia.

 
Fausto começou a gritar avisando que o veleiro rebocado não tinha manobrabilidade e que o Guruçá poderia girar, gritava para que eles não chegassem tão perto. O rapaz fez um sinal de positivo, mas eu tive o pressentimento que uma colisão poderia acontecer. E foi tudo muito rápido! O veleiro que estava longe e não nos apresentava perigo, de repente, em questão de minutos estava em cima da gente e graças aos anjos protetores do Guruçá o pior não aconteceu, por um triz! 

Postei nas minhas redes sociais (ainda não me segue? fala sério heim?!) e choveram comentários. O que mais foi perguntado: Porque a marinha não ajudou no reboque com o bote? Não puxando o veleiro é claro, mas o empurrando lateralmente para mantê-lo em um desejado rumo, fazendo o papel de um leme? Teria ajudado muito!

Se eles estivessem empurrando o veleiro lateralmente (o que é muito comum nas marinas pelo mundo afora), não teríamos corrido o risco que corremos e se tivessémos o prejuízo, não teríamos a quem recorrer.
A sensação que tenho é que o barco podre e abandonado é mais importante do que todos os outros.
Se dizem que esse veleiro é responsabilidade da marinha brasileira, por que não o colocam em uma das poitas da baía do Colégio Naval? Uma baía enorme e vazia, assim o Lord Jim não ofereceria perigo aos outros. 
Não acredito que alguém compre  e restaure o Lord Jim tamanha a podridão que ele se encontra. Se aparecer um milionário e corajoso para tal trabalho, o barco seria completamente refeito e só manteriam o nome.

O próprio dono do Lord Jim, o senhor Holger Kreuzhage, fez um comentário no meu facebook, dizendo algo como se tivesse desistido do barco após gastar mais de 250 mil dólares na rua restauração. Mas foram tantos comentários, que não encontro o dele especificamente.

Uma outra pessoa comentou “  Deveriam desenhar um plano de afundamento controlado. Colocá-lo em um local seguro, sem representar risco para a proteger a vida marinha e criar um local para mergulho de naufrágio. É melhor do que deixa-lo se acabar, enquanto representa um perigo para a navegação. É lamentável, mas fazer o que?

Da maneira que está, a chance dele ir parar em pedras e afundar é grande. E menos mal se isso acontecer, afundar seria o ideal, porque se não fosse a escuna que serviu de paredão, Lord Jim iria parar em uma praia em frente a um hotel. Quem arcaria com os custos da limpeza da praia?

Ficaremos para ver as cenas dos próximos capítulos ou acataremos a frase:
Os incomodados que se mudem!

Fiz os vídeos ao vivo pelo Facebook, e não sei postá-los aqui. Quem quiser assistir ao asburdo só acessando no meu perfil do Facebook Guta Favarato.

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sábado, 24 de março de 2018

O veleiro amarelo

Oi Oi Oi povo do mar, tudo bom com vocês para variar? hehehe

Esse meu querido blog que estava me causando peso na consciência há tempos pelo abandono, quase foi para o brejo.  Motivo principal: Falta de assunto. Não estamos mais viajando e acho que tudo que fazemos a bordo é trivial para compartilhar. Até que hoje abri um e-mail que não sei o porquê não havia feito antes. A minha caixa de e-mail é uma bagunça total, demoro a responder as perguntas que nos fazem porque a nossa prioridade é o trabalho, enfim, estou no processo de organização da minha vida virtual e o blog era uma das coisas que estava indo para forca.

O bendito e-mail se tratava de uma proposta para que eu escrevesse uma coluna mensal para um famoso site náutico. O pagamento seria de R$ 100 por texto, pode parecer pouco, mas pelo menos a pessoa teve a dignidade de explicar o porquê só poderia me pagar esse valor simbólico. Já fui convidada a escrever para revistas e jornais náuticos sem receber nada, “só pela fama” como um deles teve a cara de pau de dizer.

Foi ai que acordei e saí da minha jaula de preguiça mental. Tenho o meu blog há anos, onde escrevo o que eu quiser e como quiser (sem editor sabichão mudando meu texto para pior) um público pequeno, mas que está ai do outro lado aguardando minhas postagens pacientemente.

Então, estou de volta com todo o gás (espero que ele dure bastante) e como na nossa vida atual não fazemos mais do que charters, Fausto trabalhando no novo projeto e eu começando a escrever o livro, vou comentar o que deu o que falar nas redes sociais náuticas essa semana, especificadamente no grupo Navegantes do facebook.

Observem essa foto:

mini barco amarelo
Assisti ao novo filme Tomb  Raider (em cartaz) e em uma cena, Lara Croft quer ir a uma determinada ilha e tenta convencer o capitão de que seria uma aventura! E o capitão responde: – A morte não é uma aventura!


Daí lembrei-me do post que foi publicado no grupo Navegantes, muito bem administrado pelo Jorge Dino.  Para vocês entenderem melhor, em resumo, esse senhor da foto de 78 anos projetou e construiu um micro-barco de seis metros e com ele pretende navegar da Suécia até a Nova Zelândia. Detalhes: O barco tem somente duas velas em dois mastros e sem motor, ele usará remos em dias de calmaria. 
Eu já leio o post correndo para ler os comentários logo em seguida e é claro que deu o maior bá fá fá. Uns dizendo que o senhor era maluco, outros defendendo o sueco com unhas e dentes. Eu  comentei que achei o barco feio e só havia gostado da cor, não sei o porquê rsrsrsrs
Recordei-me de um colega holandes que uma vez me contou que assistiu a uma palestra de um famoso velejador da Holanda e o cara começava a palestra dizendo mais ou menos assim:

Querem saber como é velejar em alto mar com o tempo ruim? Coloque uma roupa de tempo, entrem embaixo de um chuveiro gelado e comecem a rasgar notas de 100 euros.

No nosso caso, tentávamos fazer uma aventura segura, mas quando estamos no mar e ele resolve virar o capeta, não tem muito o que fazer.  Ou se esconde na cabine (e rasgue os 100 euros depois se não pior) ou vai pro pau tentar ter o mínimo de danos possíveis.  Já tomei muito banho de água salgada, já dei muita topada, fiquei com hematomas que só Deus sabe como e em um catamarã de 54’! Então, olhando essa foto, se ela for realmente verdadeira, esse velejador vai sofrer e muito! Se eu não soubesse que ele é suéco, diria que era o holandes da palestra. 
Para os defensores que disseram “é melhor morrer sofrendo no mar do que sentado no sofá da sala”, esses que creio eu, nunca passaram por um perrengue no mar, fiquem atentos:
Tô pensando em abrir um curso “sofrimento a bordo” onde colocaremos o Guruçá na orça de uma frente fria bem forte. Os turnos seriam feitos na proa do barco e a cada caturrada e banho de água salgada, eu daria uma chicotada em um por um, só para animar a tripulação. Que tal?
Acho que a turma iria lotar, porque pelo que vi tem muita gente disposta a pagar para sofrer…

Uma coisa é fato, o velejador tem a memória mais curta do mundo, praticamente temos a síndrome da Dolly, a peixinha azul do filme Procurando Nemo. Eu já passei por situações no mar que chorei, me descabelei e jurei que assim que chegasse em terra nunca mais pisaria em um barco novamente. Então, quando chegava em terra, esquecia tudo e já estava preparada para próxima.

Dizem que pela beleza as pessoas não sentem frio, calor e nada custa tão caro que não valha a pena pagar (mesmo que em 12 vezes rsrsrs)

Acho que para um aventureiro, o sofrimento, as adversidades não contam, o que importa é chegar lá e realizar o seu propósito. Mas também acho que existem níveis de sofrimento e no meu caso, prefiro sofrer em um catamarã de 54’ rsrsrs

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domingo, 4 de fevereiro de 2018

O dia que desmaiei pela primeira vez a bordo.

Oi Oi Oi povo do mar!
Segue mais uma história da nossa vida à bordo. Sim, pretendo que essas histórias se tornem um livro, mas como não me aguento, quero logo compartilhar com vocês o que escrevo.
Preparados? 
Quando conheci Fausto, ele estava construindo o Cat Guruçá, 62’ azul, e assim que entrei no projeto de morar e trabalhar à bordo, começaram as aulas teóricas sobre o assunto. Sou do tipo de pessoa que aprendo muito mais rápido com a prática e confesso que cada vez que ele repetia pela centésima vez uma aula teórica, eu o enforcava. Mentalmente, claro.
Então colocamos o Cat Guruçá na água e mil situações aconteceram até a história de hoje: A primeira vez que desmaiei à bordo (a primeira de muitas).
Havíamos participado da REFENO (Regata Recife - Fernando de Noronha) fazendo charter com um grupo de 18,DEZOITO, pessoas! A maioria dos tripulantes eram alunos de vela e dois professores. Um francês/carioca, do tipo que joga o aluno na jaula do leão e ele só sai de lá sabendo domar o bicho e o outro, um professor de São Paulo, um pouco menos rígido, que dava um chicote para o aluno, mas o jogava na jaula do mesmo jeito. Pensem nas tretas que rolaram?! Mas tretas boas e no final, todo mundo se deu bem! Em pensar que ontem, ouvi um pretendente a morar à bordo e viajar pelo mundo, reclamando que fez uma travessia e o capitão havia dividido os turnos, feito em dupla, de três em três horas. Segundo ele, turnos de três horas era muito cansativo. Ô Gzuis, paciência para esses novos velejadores que querem viajar sem molhar a bunda.
Olha eu mudando o rumo da história, foco Guta, foco!
Voltando,
Não me recordo a colocação, mas fomos um dos primeiros a chegar , nos áureos tempos da REFENO onde as inscrições para regata era limitada em 120 veleiros tamanha a procura. Então, fundeamos o mais perto da praia possível para facilitar o desembarque da galera.
Com dessoito pessoas a bordo, não é difícil imaginar como cheguei em Noronha, morta de cansada. 
Haveria um tradicional churrasco de bode perto do porto eu e toda turma estávamos super animados para o desembarque. Mas ouvi uma vozinha que me disse não vá. Meu anjo da guarda havia se manifestado + o meu cansasso, decidi ficar à bordo. 
Fiquei sozinha e capotei. Acordei com um balanço do mar diferente. Com fome, pensei em colocar água para esquentar e comer um miojo. Assim que liguei o fogão ouvi e senti uma porrada no casco de bombordo. Desliguei o fogão e corri para fora ver do que se tratava. 
Um veleiro estava no nosso costado. Supus que ele estava garrando (se soltando) e havia batido no nosso. Olhei o meu cabresto e a corrente estava certinha na água, estávamos aproados com o vento, aparentemente, nada de errado com a minha ancoragem. Corri para dentro e pedi ajuda pelo rádio VHF, só que ninguém respondeu. 
Nesse momento, outra porrada. Corri para fora, tipo, corri muito pra lá e pra cá, estilo papa léguas e para minha surpresa outro veleiro estava batendo no nosso. O anterior já estava bem na nossa proa. Demorei segundos que tinham a proporção de horas para perceber que o problema era o meu veleiro, no caso, um catamarã de 62’ que tinha pelo menos uns trinta veleiros menores fundeados na nossa popa. 
Porque no primeiro momento sempre pensamos que o errado são os outros? 
Daí bateu o desespero. O que eu faço, o que eu faço? O que Fausto dizia que tinha que fazer caso o barco garrasse? Não conseguia me recordar. Criei uma pasta mental: aulas chatas do Fausto e esqueci a senha. 
Pedi pelo-amor-de-Deus no VHF que continuava mudo. 
Então, em fração de segundos, consegui acessar a pasta. A sensação que tive era que estava morrendo afogada e consegui chegar na superfície e pegar ar (conheço a sensação de verdade), o meu corpo começou a trabalhar quase que no automático:
Liguei os motores com o piloto automático para avante na marcha mais lenta,
Corri para proa e comecei a puxar a corrente, pensei: 
Até eu puxar os 50 metros de corrente terei batido em mais algum veleiro.
Mas assim que comecei a puxar, com a ajuda do guincho, tirei o cabresto e uns 10 metros depois a corrente chegou partida. Eu nunca imaginaria que ficaria feliz pela corrente estar partida.
Então, como não precisei puxar os 40 metros de corrente restante, tive mais tempo para manobrar o Cat Guruçá sem que ele batesse em mais ninguém.
Naquela época eu tinha um problema sério com a minha pressão que por qualquer nervoso caia. Então danei a respirar e respirar para que ela não caísse. Corri na cozinha e enfiei uma colher de sal na goela abaixo. Respirando, respirando e pensando o que eu faria. 
Eu sabia que tínhamos mais corrente, mais duas âncoras reserva e estava pensando em deixar o barco à deriva para preparar o novo sistema de fundeio. 
Fausto que estava lá em cima do morro, batendo papo, tomando uma cervejinha e comendo uma carninha de bode, quando olhou para o mar e apreciar a vista, viu o Cat Guruçá zangando pela ancoragem. Diz ele que saiu numa carreira tão grande que suas perninhas curtinhas quase criaram asas. Um bote da marinha estava no píer e deu carona a ele até o Cat Guruçá. Quando ele chegou à bordo, já haviam dois rapazes que ouviram meu pedido de ajuda e foram tentar ajudar. Me recordo bem quando eles me perguntaram: Cadê o capitão? 
-Tá em terra, tô sozinha.
-Mas minha nossa, tu é arretada, conheço muito homem que não daria conta de um catamarã desse tamanho não visse?! 
Então continuei no timão enquanto Fausto preparava nosso segundo sistema de ancoragem. Preparou, fundeou e assim que ele pegou no timão eu caí, feito jaca madura, desmaiada. 
O que aconteceu afinal? Havia entrado uma forte ondulação devido a um furacão no hemisfério norte, a nossa corrente ficou presa em alguma pedra e com os trancos se partiu. Por isso em momento algum demos o costado para o vento o que ajudou a eu demorar para entender o que estava acontecendo. Sorte que não havia vento, só a ondulação. Outros veleiros tiveram o mesmo problema. Fausto contratou um mergulhador para recuperar a nossa âncora que acabou recuperando as dos outros também. 
A ancoragem toda ficou sabendo do “bafo” e me parabenizavam. Mas no fundo no fundo apesar de feliz por ter dado tudo certo eu sabia que tinha muito o que aprender e principalmente teria que descobrir como perder o medo. 
Anos depois e situações mais difíceis ainda superadas, descobri que para mim é impossível não sentir medo, mas consegui controlá-lo. Aprendi que o medo, o friozinho que sobe na nossa espinha, faz parte da aventura e sem ele, que graça teria? 
Guta Favarato



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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Você sabe o que significa experiencialismo?

Você sabe o que significa experiencialismo?

Dizem que é um novo estilo de vida que não gire em torno de ‘ter’, mas de 'fazer’. Um estilo de vida que se baseia em experiências.
A idéia de que mais posses significava mais felicidade nos transformou de pessoas zelosas e econômicas em consumidores desenfreados.
A desigualdade social tende a criar competitividade e sentimos inveja ao invés de alegria quando um amigo compra qualquer coisa que gostaríamos de ter. Posses e bens materiais não estão unindo as pessoas, eles estão nos separando.

Quando a sua perspectiva muda de materialista para experiencialista, você para de gastar tempo adquirindo coisas e trabalhando o máximo que puder para poder pagar por elas e começa a fazer escolhas de vida com base nas experiências.
Viver à bordo faz parte dessa nova era, trocamos o ter pelo ser e fazer, aprender e crescer. 

Usamos painéis solares e geradores eólicos para gerar nossa própria energia; Coletamos, bebemos e tomamos banho com a água da chuva ou dessalinizamos; Geramos bem menos lixo; Aprendemos a viver com pouco e causamos menos poluição a natureza. 
Recebi um e-mail de um cliente interessado em fazer charter, com um detalhe que me chamou atenção: Queremos morar à bordo, mas somos uma família Nutella. Não queremos economizar nada (água e energia), vou levar meu ar condicionado portátil (pq só durmo com o barulho dele) e minha esposa não vive sem secador de cabelo. Ou seja, vão de encontro a tudo que vivemos no nosso dia a dia. No que acreditamos ser melhor para NOSSA vida. 
Você pode se encaixar na turma dos Nutella, raiz, prestígio e sei lá mais quais classes foram inventadas, mas antes de se preocuparem com as mordomias que pensam em ter à bordo, prepararem-se para o convívio com a natureza. Muitos pretendentes da vida no mar se esquecem, ou nem sabem, que a natureza é do tipo de professora que adora fazer testes surpresa e que não costuma dar uma segunda chance. O despreparo significa reprovação com no mínimo o prejuízo financeiro. É claro que você pode morar à bordo no conforto e segurança de uma marina. Mas na minha opinião, o Pier será como um prédio e a Marina um condomínio, que no final das contas, não será muito diferente de terra porque você não ficará exposto as dificuldades normais do cotidiano do mar. Agora, se você for um “morador de rua” ou deseja viajar velejando, o mar não faz distinção entre as pessoas. Você terá que ser capaz de resolver um problema o mais rápido possível e dependendo da situação você tomara um banho de água salgada e gelada, terá ondas estourando no casco do seu barco que fará com que tudo trema e pareça que vai desabar na sua cabeça, você fará manobras que deixarão seu corpo exaurido e com prováveis marcas roxas que você não terá idéia de como conseguiu; sentirá frio na barriga ou as pernas bambas ou o coração saindo pela boca e muito provavelmente todas as opções acima.

À bordo vivemos a vida intensamente, a natureza sempre nos testando, mas oferecendo uma elevada diversificação de experiências e sensações que nos preenche de um prazer de superação, que para nós é essencial.
Vocês podem estar pensando na resposta que dei ao cliente certo? 

Ainda não dei nenhuma. Que resposta eu deveria dar a uma família que está condicionada a dormir ouvindo o barulho de uma máquina ao invés de ouvir os pingos da chuva no convés, das craquinhas estalando no do mar, da cigarra e dos passarinhos cantando ao amanhecer? 
Guta Favarato

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