domingo, 3 de maio de 2015

Dia-a-dia a bordo na Papua Nova Guiné, mas que poderia ser em qualquer lugar…

Prevíamos ficar pelo menos um mês em Kavieng no norte  da Papua Nova Guiné (PNG) esperando a temporada de furacões terminar nas Filipinas e só depois seguiríamos para lá(acabamos não indo devido a um tufão no meio do caminho, veja o post AQUI). Então, não tínhamos pressa para nada. Quem nos acompanha percebeu que nos últimos meses a viagem foi corrida. Muitos lugares para conhecer, poucos prazos de visto, saída de zona de furacões. Pode parecer zuera da minha parte mas viajar de veleiro é intenso e cansa. Então, saber que ficaríamos pelo menos um mês paradinhos foi um alívio.

Basicamente acordamos, quer dizer, eu Guta acordava as 6:30 da manhã com o cantar dos trocentos pássaros existentes nas ilhas, Kavieng foi o lugar com a maior variedade de pássaros que conhecemos até o momento. Fausto, acordava antes do amanhecer, e ficava bebericando sua xícara cheia de café expresso sem açúcar esperando o sol nascer.

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Tomamos café da manhã, e decidimos o que vamos fazer. Naquele dia, Fausto foi remar e conhecer ilhas e eu fiquei  no barco escrevendo. Não estava com vontade de sair do barco. Ainda bem que ouvi meu anjinho da guarda, porque tive uma dor de barriga daquelas de fazer a gente suar frio. Já tive tantas dores de barriga nessa viagem que já desisti de ficar tentando descobrir o que me fez mal. Mesmo com esse probleminha, meu dia foi ótimo. 

Ouvir as crianças nativas brincando em terra. As crianças dos veleiros vizinhos brincando na água. Têm coisa mais gostosa do que risada de criança?

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Quase meio dia, fui preparar o almoço. Fausto chegou animado. Disse que os nativos eram muito gente boa e já tinha programa para o dia seguinte, pelo menos umas três horas de caminhada (eu ainda estaria com dor de barriga #preguiçosa).

Antes do almoço Fausto bebericava sua cervejinha local. Bebericava, porque ele só tinha duas cervejas para tomar por dia. Contenção de gastos e controle de calorias. #esposamalvada.

Almoçamos um risoto com carne defumada que eu tinha na geladeira desde o Panamá. Guardei no saco a vácuo e estava perfeita. O risoto ficou delicioso!

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Uma sonequinha básica depois do almoço que não durou muito tempo. Alguém já fez sauna dormindo? É a sensação que tínhamos. Kavieng era muito quente! E não tinha vento. A água do mar também era quente, não ajudava muito a refrescar. Felizmente a tarde o “pau quebrava” com a entrada de pirajás e naquele  momento, somente naquele momento, eu agradecia pelos ventos e chuvas com águas geladinhas que eles traziam.

Tomar banho de chuva, delícia! Me recordo de forozinho do bão: Experimente tomar banho de chuva, para receber a energia do céu, a energia dessa água sagrada, que nos abençoa da cabeça aos pés… Ficava cantando e me refrescando. Um banho sem economia, sem peso na consciência.

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Como nas Salomões, em Kavieng, o Guruçá servia de abrigo para lulas.  Pensei em cobrar o aluguel, mas já estávamos até colocando nomes nas bichinhas. Não tínhamos coragem de pescá-las. Vê-las nadando era tão bonito. As vezes sacaneámos. Jogamos alguma coisa na água e elas assustadas soltavam  a tinta preta, um mecanismo de defesa e nadavam correndo (?). Até o Faísca ficava observando elas nadarem.

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Muitos peixes pulavam perto do barco, a noite até parecia uma canoa com alguém remando. O pestinha do Faísca sabe a diferença. Incrível! Ouvimos um barulho e se ele não latir, não é nada para nos preocuparmos. Exceto golfinhos. Faísca vai a loucura com eles, que nadavam vagarosamente e davam saltos que me faziam voltar a ser criança, a dar gritinhos de emoção! Sempre fico boba: Ai que lindo! Que lindo!

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Acessava ao facebook para saber das fofocas, novidades. A conecção a internet via celular na ancoragem funcionava, muito lentamente mas funcionava. Não tínhamos essa mordomia desde o Panamá.

Havia um monte de coisas para fazer no barco, a listinha de coisas para fazer nunca fica vazia.  Nada quebrado, graças a Deus, só tínhamos que fazer as manutenções, mas deixar para fazer manutenção a tarde, é conversa fiada, sempre fica para o outro dia…

Estava morrendo de vontade de comer um sanduba de atum mas nossa maionese havia acabado e desde das Salomões não encontramos ninguém que soubesse o que era maionese.

Apreciamos mais um belo por do sol, jantamos uma sopinha de abóbora com asinhas de frango enquanto assistimos a um filme, e fomos dormir. 

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Bom né?!

Guta

domingo, 26 de abril de 2015

Kavieng–Papua Nova Guiné

Kavieng fica bem ao norte da Papua Nova Guiné, e de lá muitos velejadores vão para Micronésia, Filipinas ou Indonésia.  Fizemos a travessia de Gizo nas Salomões até Kavieng na PNG somente com os motores. Completamente sem vento e corrente contra. Menos mal o mar estava tranquilo.

Assim que chegamos fundeamos em uma ancoragem em frente a um resort, o que para nós seria uma pousada. Essa ancoragem ficava do outro lado da cidade. Em frente a cidade estava cheio de barcos de pesca em poitas, pois o fundo era coral. Fundeamos em 12 metros com fundo de areia.

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Na cidade, fomos fazer os papéis de entrada em escritórios perto do aeroporto. Em Salomões tiramos um visto para entrar na Papua, mas se tivéssemos chegado sem o visto, poderia ser feito na hora. Não preenchemos nada. Só entregamos nossa lista de tripulantes, a moça carimbou o passaporte e fim. Sem custos e sem preenchermos trocentas folhas. Até estranhamos. 

O tempo por lá era muito quente. Água do mar quente, sol de derreter o coco, sem vento, abafado. E a tarde os pirajás entravam pocando a boca do balão.

Esse “resort” onde ficamos fundeados em frente, era de uma família de Australianos que alugavam uma parte da ilha para o negócio, soubemos que o governo da PNG não permite que as terras sejam vendidas a estrangeiros, só alugadas. Como Kavieng é um destino considerado seguro e muito bonito, sendo bastante procurado por surfistas e mergulhadores, o resort ficava sempre cheio, e gerava empregos para os nativos da ilha. Porém o quadro de funcionários sempre estava defasado, porque como os nativos das Salomões, os da Papua também não eram chegados num trabalho. Aliás, não descobrimos do que aquele povo vivia, (acho que tinham bolsa família porque os bancos viviam lotados). Todo mundo tinha uma lancha de fibra com motores  de 40 hps novos e só andavam com as lanchas a mil por hora. O que equivalia a ter uma caminhonete cabine dupla no Caribe.

20141109_224646O resort

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20141109_041036O resort mantinha muitos pássaros soltos e alguns presos. A maioria animais resgatados por maus tratos.

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Íamos para cidade com Fausto remando para fazer exercícios e economizar na gasosa. Sempre aparecia uns garotos com suas canoas querendo fazer “pega”.

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Na cidade havia uma feira, do tipo que o povo vendia o que tinha em casa (bananas, coco, aipim, batata doce).  Tudo sujo, e sem organização. Como chovia quase todos os dias a tarde, o local da feira virava um lamaçal e o povo no dia seguinte, estava lá, com suas esteiras, vendendo o pouco que tinham sentados no chão.  Artesanatos de bolsas belíssimas e também caríssimas.

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O povo devia comer pouco, porque metade da feira era dedicada ao DAMI (um tipo de droga lícita natural local) e ao fumo. Esses materiais “especiais” não ficavam no chão.

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20141111_210104Pó de concha, um dos ingredientes do DAMI.

A “praça de alimentação” da feira era bizarra. Muitos peixes, acho que defumados. Uns bolinhos que eu não comeria nem pagando. E isso com a galera espantando as moscas que ficavam a espreita. Se alguém fizesse coxinha para vender naquele lugar ficaria rico!

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Os supermercados também eram de orientais, mas diferente das Salomões os restaurantes eram horrorosos. Serviam uma comida cara, sem gosto e gordurosas. Os atendentes mal humorados, não ofereciam canudo, guardanapo. Tratavam as pessoas feito bicho.

Até agora  demos uma meia volta ao mundo e Kavieng foi o lugar mais caro por onde passamos. Tudo com preços exorbitantes. Um frango pequeno congelado custava o equivalente a R$ 28. Um quilo de carne moída (que só Deus sabe do que era), custava R$ 60. Tudo, do leite ao pão, muito caro.

As pessoas, acho que acostumadas com o turismo, não eram tão simpáticas. Muitas nem sabiam onde era o Brasil, nunca haviam ouvido falar.

A grande maioria das pessoas carregava um bichinho de estimação consigo. Um gambá embaixo de cada braço! Desodorante vencido, quer dizer, praticamente ninguém usava desodorante. E provavelmente não tomavam banho todos os dias porque olha, era uma catinga da braba! Só funcionários de bancos etc.. eram arrumadinhos e com aspecto de limpos, o povo em geral eram bem largados. Muita sujeira nas ruas e uma coisa que me deixou de cabelo em pé: A galera cospe, e muito, principalmente a saliva vermelha da mastigação do Dami. Só que eles não estão nem ai para quem estiver do lado, eles se viram e cospem o mais longe que puderem. Se você estiver passando e não ficar esperto, báu, báu. Vira e mexe alguém cai na porrada por isso por lá. 

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O povo da PNG ainda têm aquela coisa de pertencer a tribos, de uma tribo entrar em luta com outras. E ainda por cima tinha os políticos querendo fazer das ilhas independentes. Ou seja, briga direto. Todos os dias nos jornais,tinha notícias de mortes por conflitos entre tribos. Eles ODEIAM japoneses. Durante a segunda guerra mundial, quando os japoneses invadiram a Papua, os nativos foram “pro pau”, claro que se ferraram porque os japoneses passaram fogo em todo mundo, por isso o ódio. Tínhamos um veleiro  americano vizinho , o James, e ele nos disse que nunca fora tão bem tratado como estava sendo em Kavieng. Para os nativos, os americanos são heróis, que os salvaram da tirania japonesa. Incrível que depois de tantos anos eles mantêm esse sentimento ruim. Não sentimos isso por parte dos nativos das Salomões (que não resistiram a invasão japonesa).

Recebemos um casal de nativos a bordo e a esposa  fazia artesanato com conchas e corais. Tudo lindo, mas muito caro para o nosso bolso.  Ambos tinham tatuagens no rosto. Perguntei o que era, e me responderam que eram símbolos de sua tribo.

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Fausto e um americano que estava hospedado no “resort” foram caminhar em uma ilha, quando estavam na praia, o cara que se fazia dono do local avisou que eles tinham que pagar para passarem por ali. Fausto disse que não iria pagar, praia não têm dono e o cara partiu para briga. Assim, sem mais nem menos.  Fausto avisou que se ele o tocasse iria na embaixada dar queixa. O americano ficou branco feito vela e disse que estava hospedado no resort. – Você está hospedado no resort? Então não precisa pagar! Você de barco, precisa sim! (Fausto não pagou).

Fomos procurar saber e além de pagarmos para passear pelas praias, surfistas tinham que pagar para ter o direito de surfar nas águas da Papua e uma diária por dia surfado.  Quem arrecadava esse dinheiro? O resort, que depois, teoricamente repassava o montante as famílias que viviam na ilha. Conversando com o casal nativo, eles disseram ser mentira. Que o resort quase nunca repassava  algum dinheiro a  eles. Essas taxas eram cobradas somente de quem chegava de veleiro, quem se hospedava no resort não pagava nada. Palhaçada! Tinha um australiano na ancoragem que saiu da Austrália, velejou até Kavieng só para surfar e foi cobrado. O cara ficou possesso! Nós que não surfamos ficamos… Imaginem só, aluguel de ondas, ninguém merece! Não descobrimos se isso era uma lei da prefeitura ou se era sacanagem do resort.

Viajando, estou aprendendo a ter o coração e a mente mais aberta para tudo, aprendendo a me adaptar em cada novo lugar que conhecemos e sua cultura. Deixar de julgar as pessoas por suas aparências, atitudes e costumes tão diferentes dos nossos é um exercício diário e muito difícil

Na feira eu só via mulher trabalhando. Raríssimos homens fazendo alguma coisa. Fomos para a cidade um dia cedinho, Fausto foi caminhar e eu fiquei para fotografar etc.. Sentei e fiquei observando o povo. Canoas que são praticamente lanchas, chegavam de várias ilhas lotadas de gente com produtos para serem vendidos na cidade. Os homens fundeavam as lanchas na beirinha da praia e subiam para se sentarem embaixo de alguma árvore. As mulheres é que se matavam para carregar sacolas e mais sacolas pesadíssimas até a feira. Umas horas depois, haviam vários homens jogando conversa fora embaixo das árvores comendo DAMI (uma droga lícita natural local), e as mulheres feito porcos na lama trabalhando. Revoltante! Meu exercício de respeitar a cultura foi para o beleléu! Para completar nesse mesmo dia, vi um cara com uma sacola de pão nas mãos andando apressado e uma menina de uns quatro anos, que pelo jeito era filha dele, com uma sacola de verduras gigante presa na cabecinha dela, e ainda por cima correndo atrás do pai. Quando me ofereci para ajudá-la o pai disse: -  Não, ela têm que aprender! Puxou a menina com uma violência e fez cara de bravo para mim.  Tive vontade de dar uma voadora na cara do sujeito. Filho duma égua, gritei!  Pode não ter entendido, mas  ouviu e deve ter sentido a energia de fúria que mandei para ele.

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Aliás, em Kavieng mandei muita gente tomar naquele lugar. As ruas de mão inglesa não tinha acostamento, ou você andava na beiradinha da estrada ou no meio da lama. Ficava bem claro que o povo que se dane! E os bonitões com um carro nas mãos, se achavam donos do mundo. Buzinavam em cima de qualquer um, passavam tirando fino, jogando o povo para a lama, sem necessidade, pois havia espaço para o carro passar. Uma vez, caminhando sozinha, veio um jipe por trás de mim na minha direção. Somente eu e o jipe, mais ninguém. Pensei, quer ver que o cara vai buzinar para eu sair da estrada?! (sendo que ele poderia só jogar o carro um pouquinho para o lado). Dito e feito. O cara além de buzinar, ainda fez sinal de que eu deveria andar na lama. Então, basicamente eu tinha que ficar esperta para não pisar na lama, para não ser atropelada por um motorista mal educado, para não ser cuspida, tapar o nariz e fechar os olhos para um monte de coisa chata. A partir daquele dia, parei de ir a cidade. Só fui no último dia para fazer compras e fazer o chek out, que felizmente foi tão tranquilo quanto o chek inn.

Tinha muito peixe, lulas e lagostas em toda baía. Mas como o povo, o povo não, os homens não gostavam de trabalhar, quase não se via ninguém pescando. Em uma tarde um raro pescador passou oferecendo lagosta. Pagamos por quatro lagostas de um tamanho médio pelo o equivalente a R$ 12. Menos da metade do preço do frango congelado. - Moço, quando pescar pode trazer o que tiver para nós ok?!- Ok, mas só vou pescar novamente semana que vem… Comemos lagosta de tudo quando é jeito. Até recheio de coxinha eu fiz.

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Fiquei apaixonada pelas bolsinhas feitas de palha de coqueiro. Todo mundo tinha uma, mas não consegui achar para comprar.

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As de linha coloridas tinha para comprar na feira, mas me pediram R$ 200 em uma bolsa. Achei caríssimo. Na Colômbia, comprei um modelo que é famoso em todo o mundo por R$ 60. Fiquei na vontade!

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Passeando pelas ilhas perto da ancoragem:

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Muitas estrelas do mar diferentes:

20141109_224944Estrelinha adolescente: Cheia de espinhas Alegre

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20141115_220809A estrelinha amiga do Bob Esponja.

20141109_220553Duas irmãs pescando, e os meninos jogando bolinhas de gude…

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20141115_225805O menino colocava as folhas embaixo da barriga para não machucar, ralando na prancha. Esperto!

20141115_230452Um manguezal nascendo.

20141109_214659Fausto jogando bolinha de gude com a gurizada.

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Kavieng tinha uma variedade de pássaros enorme. Quase não os víamos mas os ouvíamos cantar, principalmente pela manhã. Um pássaro em especial tinha um cantar de um gatinho miando. Era muito estranho, parecia que tinha um gatinho voando e chorando por comida entendem? O Faísca ficava doidinho quando passavam pelo barco.

Catei essas duas fotos de um hotel na cidade. Uma mostra o ataque dos japoneses a Kavieng durante a segunda guerra mundial e a outra de nativos com um mega crocodilo.

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O entardecer era quase sempre muito bonito.

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Até mais pessoal,

Guta