domingo, 19 de julho de 2015

Navegação pela Indonésia

Quando o nosso CAIT ficou pronto (uma espécie de visto para o veleiro navegar em águas Indonésias) já estávamos com o barco pronto para partirmos. Já havíamos “perdido” mais de um mês dos três meses de visto concedidos a nós e a Indonésia é um país gigante!

Com relação ao CAIT e ao visto, a Indonésia concede três meses renováveis por mais três, só que o valor praticamente dobra para a renovação, ou seja, pagaríamos uns US$ 500 só pelo CAIT e nem sei mais quanto pelos vistos pessoais, além de toda burocracia novamente. Outra coisa que descobrimos é que teríamos que fazer o chek Inn e check out em cada porto que parássemos, até ai tudo bem, só que cada porto tinha uma espécie de autonomia e poderia cobrar taxas de “passagem pelo porto”. Existe uma lei na Indonésia, daqueles tipos de leis absurdas que na prática não funcionam, mas que alguns portos estavam exigindo. Teríamos que pagar 80% do valor do barco em dinheiro, um tipo de seguro, caso acontecesse algo com o barco naquele porto. Se não acontecesse nada, o valor seria integralmente devolvido. A pergunta é: Quem tem xxxx mil dólares (ainda tinha que converter em rúpias) para deixar como um “calção” para qualquer governo?  Então teríamos que fazer nossa navegação passando direto por essas ilhas mais BURROcráticas e ao mesmo tempo observar a nossa autonomia para conseguirmos chegar em ilhas onde pudéssemos abastecer de diesel, outra maratona complicada. A Indonésia é toda complicada gente…

Temos quatro tanques de 300 litros ou seja 1200 litros de diesel cabem na traseira do Guruçá e ainda assim, tivemos que abastecer em Ambom e Bali. Como pegamos corrente contra o tempo todo, diminuiu bastante a nossa autonomia, benditos motores YANMAR, aguentaram o tranco sem reclamarem (temos dois motores de 39hp) . De Jayapura até Bali foram quase 1900 milhas nos motores. Depois mais de 900 milhas de Bali até a Malásia. Praticamente navegamos a Indonésia até a Tailândia onde estamos agora só nos motores. Zero vento.

Fiz uma montagem bem tosca com as fotos abaixo para ficar mais fácil de explicar.

Mapa 1

Jayapura(1) até Sorong (2) , foram umas 700 milhas no contra vento e contra corrente. Um colega Canadense saiu rumo as Filipinas e retornou ao porto dois dias depois para comprar mais bombonas e mais diesel. A corrente estava tão forte que ele não conseguiu vencê-la. Naveguei para trás, disse. Para nós foi o pior trecho, o Guruçá deu boas cavalgadas, pulou, bateu bastante contra as ondas.

De Sorong(2) saem muito barcos de charter para Raja Ampat, uma lugar belíssimo que infelizmente não tivemos tempo de conhecer. Por esse motivo o diesel era controlado para as embarcações e só poderíamos comprar através de um agente, com o prazo de no mínimo 2 semanas para a autorização.  Acabamos desistindo de abastecer em Sorong pois tínhamos diesel para chegarmos até Ambom, bem na boquinha, mas chegamos.

Ambom (3), estávamos zerados de diesel, e para comprar só no cambalacho. Conhecemos um garçom em um restaurante que nos levava todos os dias a tarde em um posto para abastecermos nossas bombonas. Uma semana perdida só para abastecer no ritmo de formiguinha. Conseguíamos comprar somente 200 litros por dia. O interessante é que na ancoragem haviam outros velejadores que estavam pagando o triplo do valor do diesel para oficiais da marinha (no mesmo esquema de formiguinha, ou seja no máximo 200l por dia). Passamos o contato do nosso garçom topa tudo e eles super nos agradeceram. 

Em Ambom, estávamos em quatro veleiros. Três catamarãs e um monocasco de ferro e cimento. O monocasco era um barco antigo e muito pesado, ele não teria autonomia para chegar em uma ilha “menos complicada”  no motor. Um casal de norte americanos tinha um catamarã que era “muito baixo”, como era um catamarã de série também antigo, o capitão não queria forçar o barco no contra vento e corrente. Ele sabia que o barco “bateria muito” contra as ondas e decidiu poupar o barco.  Esses dois veleiros iriam esperar o vento virar, o que teoricamente aconteceria em abril, mas que na prática, só aconteceu em junho.  Nessa de esperar o tempo virar, um por não ter autonomia e outro para poupar o barco, ambos tiveram que renovar seus vistos. Como o norte americano já havia renovado por 90 dias seu visto, teve que sair da Indonésia e foi de avião até Singapura. A família canadense do monocasco com esposa e três filhos (que não têm desconto por serem crianças) tiveram uma porrada no orçamento. Nós tínhamos que estar em Bali em uma certa data porque uma irmã do Fausto viria nos visitar, a mesma coisa com a  outra família norte americana que também receberia visita em Bali. Pensamos o seguinte: Nosso barco é forte. Foi construindo para aguentar tranco mesmo, esse não seria um impedimento. Se  ficássemos esperando o vento virar, teríamos que renovar os vistos. Com a grana da renovação colocamos diesel e pocamos fora!

De Ambom (3) até Bali (4) foram mais ou menos (preguiça de ligar o GPS) 860 milhas, contra corrente mas praticamente sem vento, menos mal. 

Mapa 2     

Uma outra opção seria navegar pelo “lado de fora” da Indonésia onde geralmente têm vento. O problema é que são ventos inconstantes e se tiver um furacão pelas bandas da Austrália, a a ondulação bate nessas ilhas de fora e o mar vira um inferno. Soubemos de um velejador americano (os americanos vivem em contato entre si) que passou pelo lado de fora, nosso colega disse que ele era do tipo que dizia nunca “rasgar dinheiro com diesel”  deu o azar de pegar as ondulações que chegaram de um furação que passou perto da segura Nova Zelândia (veremos até quando) e acabou perdendo estai, cruzeta, passou o maior perrengue. Acabou se desgastando e gastando dinheiro do mesmo jeito, na verdade pior do que comprar diesel, deve ser importar alguma coisa na Indonésia..  

Mapa 3 Lado sul  ou lado de fora do Arquipélago

Uma coisa boa na Indonésia é a cobertura de internet (é assim que se fala?) mesmo no mar, quando passávamos perto de alguma ilha, por menor que fosse, tínhamos acesso a internet pelo celular. Assim avisei no facebook que estávamos indo para Bali e daí o Ben, um Inglês casado com a Brasileira Rosângela que não víamos há anos, nos passou as coordenadas para entrarmos em Sanur, segundo ele, muito melhor do que ficar no porto de Benoa. Se ele não tivesse nos avisado não teríamos entrado em Sanur. O guia que temos (uma porcaria por sinal) as dicas do Noonsite (que sempre se isenta de tudo)  o mapa do Navionics e Open CPN não mostram que existe uma entrada para essa baía. Um completo absurdo porque existem umas 300 embarcações fundeadas lá. A sinalização de entrada é confusa, feita por nativos com boias, não dá para confiar. Entramos com as coordenadas que o Ben nos passou e foi tranquilo. Um mês antes um monocasco tentou entrar sem as coordenadas, somente se orientando pelas boias, o Ben estava surfando nas ondas dos corais e viu o cara entrando errado, gritou, tentou avisar mas foi tarde demais. O cara acabou batendo nos corais e perdeu o barco.

Não poderia esquecer de citar que a maioria das ancoragens pela Indonésia são profundas (média de 35 metros de profundidade) e com fundo de pedras. Ouvimos vários casos de velejadores que perderam suas âncoras que entocaram.

Mapa 6Pelo mapa do Navionics estávamos fundeados em corais (5)

O casal de norte americanos que citei acima, muito simpáticos e educados, passaram pelo Brasil na sua primeira volta ao mundo. Estão na segunda volta ao mundo e morando a bordo há uns 35 anos. Para nossa tristeza, eles também foram assaltados no Brasil, em Belém e isso em 1981! O cara contou toda a história do assalto violento, da incopetência da polícia e nos perguntou: As coisas mudaram por lá?! Smiley triste

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No caminho até Bali tivemos mais um por do sol show de bola literalmente!

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Não poderia terminar esse post sem agradecer as CENTENAS de mensagens carinhosas de apoio a perda do nosso tripulinha Faísca. Ele era um mascote muito querido por praticamente todos que nos acompanham e não sabíamos o quanto! Obrigada de coração. Coração vermelho

 

domingo, 5 de julho de 2015

Uma notícia triste

Ontem, dia 05/07/2015 o Faísca morreu. Estamos em um estaleiro em Satum para manutenção do barco. Existem muitos cachorros aqui. Ele ficava maluco com vontade de descer, fazer xixi para marcar território. Compreencível e eu o descia em terra somente de manhã bem cedo, quando os outros cachorros estavam dormindo. Ontem a noite, Fausto percebeu que todos os cachorros haviam saído do estaleiro e decidimos descê-lo. Na hora que o peguei na escada ouvi uma vozinha dizendo “não faça isso” mas não dei importância. Ele desdeu, ficou todo feliz mijando em tudo quando é canto e por um segundo de distração, o cachorro do estaleiro vizinho (que provavelmente pensou se tratar de um rato) o abocanhou pelas costas, furando seus pulmões e quebrando sua coluna. Fausto correu, mas ele morreu em suas mãos.

Como não me sentir culpada?! Fui uma mãe, completamente irresponsável. Terei que conviver com isso pelo resto de minha vida.

O interessante é que ontem fiz um vídeo mostrando ele dentro do barco e eu dizendo: Não posso desder você, se não os outros cachorros te pegam né Faísca?! Só amanhã de manhã! Parece que os anjos da guarda tentaram me alertar e eu não escutei. Fausto disse que tenho que aprender a lidar com a perda, era só um cachorro. Mas a dor que sinto é física. Dói no coração literalmente.

Hoje ele não me acordou como sempre fazia. Não ficou me vigiando pela gaiuta. Não fez festa para receber carinho. A viagem não será a mesma sem ele. Como sentirei sua falta! Perdemos companheirismo, nosso segurança/alarme, carinho, alegria e suas confusões.

Estou escrevendo aqui porque muita gente gostava do Faísca também. Essas foram as últimas fotos que tirei dele:

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E me digam se existe uma receita para fazer parar de chorar, pq não consigo. Smiley chorando

domingo, 21 de junho de 2015

Curiosidades e experiências em terras Indonésias

Os motoristas não respeitam o pedestre. Pensei que fosse somente o caso da cidade de Jayapura mas não, em todos lugares que passamos na Indonésia o pedestre não é respeitado. Você pode ficar o dia inteiro na faixa de pedestres que ninguém para. Tínhamos que acenar, e as vezes nem assim paravam. O jeito era esperar até não ter carros ou motos para atravessar. O risco de ser atropelado era enorme e ainda ruas com mão inglesa.

Apesar da falta de respeito para com os pedestres, o trânsito fluía de uma forma incrível. Haviam muitos carros, muitas motos mas eles se respeitavam. Os carros dão passagem para os motoqueiros, não existe stress, não vimos ninguém xingando, brigando, buzinando. Impressiona, tanta calma no trânsito. Em três meses não vimos nenhum acidente. 

Eram meio “abaianados”. Bom dia na língua local significa Salamag Pagi, então eu dizia: Salamag Pagi, e eles respondiam paguiiiii. Baiano, principalmente do interior é meio assim também né?! Damos Bom dia! E eles respondem: Diaaaaa.

Os frangos vendidos nos supermercados eram praticamente codornas de tão pequenos. Como só comem frango e peixe, acho que a demanda é enorme e eles não dão conta de dar hormônios comida suficiente para os frangos crescerem até um tamanho razoável. Aliás, eles comem muita coisa em tamanho pequeno, até minúsculos, como camarões e peixinhos salgados. Misturou com arroz jasmine (um tipo de arroz “unidos venceremos”) e tascou pimenta, tá pronto o rango do dia.

Os indonésios em geral comem muito pouco, o nosso prato básico de arroz, feijão, carne e salada é praticamente o dobro do que eles comem normalmente. É raro ver pessoas acima do peso, principalmente entre os homens, geralmente muito magros.

20141223_013410Uma marmita comum por lá: Peixe frito, saladinha e arroz “unidos venceremos”, geralmente comido com as mãos.

Funcionários de bancos SUPER simpáticos. Os seguranças abriam a porta acenando com o chapéu, ofereciam água, chá, café, eu me sentia uma milionária que ao invés de estar trocando US$ 100 estava para pegar uma mala com 100 milhões de dólares. Coisa de filme , eu logo viajo na maionese!hahahaha

A moeda indonésia se chama rúpia, e um  US$ 1 por valia 12,600 rúpias, ou seja, quando tocávamos US$ 100 recebíamos 1 milhão e 260 mil de rúpias. A sensação de ser milionária voltava! Fausto não entendia porque eu sempre queria trocar o dinheiro hahahahaha

Os restaurantes tipo self-service tinham uma maneira interessante de expor a comida, cada pessoa se servia sempre pegando pela parte de cima. Tudo limpo e sem bagunça.

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20150131_132415Lula que parecia um carrapato gigante! Minha imaginação é fértil rs.

Bananas  verdes fritas, eram a batata frita local. Só que na minha opinião, completamente sem gosto.

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Quando fomos transferidos para o bairro Docsmilan, começamos a tomar uma sopa, vendida em carrinhos nas ruas. Era muito barata e gostosa.

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Tinha churrasquinho para comprar? Sim! Micro churrasquinhos que não davam nem para “tapar o buraco do dente” e ainda com molho doce.

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Galera, até cobra do mar eles comem. A foto não ficou boa mas eram cobras vivas. O povo escolhia, colocava dentro de uma sacola, pesavam e iam embora. Em Singapura encontramos um restaurante chinês com um prato dessa cobrinha. Servidos?!

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Esse menino estava entregando jornal descalço. Perguntei se não tinha um sapato. Ele respondeu que sim, mas que preferia andar descalço. “Só uso sapato para ir a escola”. Então tá!

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Escolas, haviam muitas escolas pelas quatro cidades que passamos: Jayapura, Sorong, Ambon e Bali. O governo fiscaliza a regularidade das crianças nas escolas. Tivemos contato com muitas delas e todas sem exceção foram educadas. Com uma média de cinco filhos, a Indonésia têm muitas crianças. Vão a escola e depois ficam o restante do dia brincando nas ruas. Pulando elástico, nadando, cantando e dançando. Recordei na minha infância várias vezes, dava gosto de ver tanta alegria.

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IMG_0139Literalmente subiam pelas paredes.

Uniforme escolar. Fofas!

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Os Indonésios, como em todos os países que passamos, adoram o Brasil e o futebol brasileiro. Havia um jogador chamado Thiago brasileiro que jogava no time de Jayapura e os nativos se gabavam desse jogador (que deve ser tratado feito rei por lá), muito comum, assim como nas Ilhas Salomões vermos alguém usando a camisa da seleção brasileira, ou uma mochila etc. Fizemos um passeio com o Sebastian e a Sandra, Argentinos do veleiro Club e na mesma família de cinco filhos, dois irmãos estavam vestindo a camisas das nossas seleções. Que coincidência!

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As motos são usadas para tudo que vocês possam imaginar.

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As mulçumanas adoram um brilho! Como ficam com praticamente o corpo todo coberto, caprichavam na maquiagem e nos acessórios como sapatos e bolsas.

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Biquíni Mulçumano.

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Laxantes, temperos e molhos Indonésios. Tudo “me dava na barriga”

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Embarcações de pesca tradicionais.

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Fotos, pediam para tirar fotos conosco em todos os lugares. Vida de celebridade cansa! rsrsrsrs

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Motos com a chave na ignição e capacetes soltos, ninguém rouba ninguém.

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Imagine o choque de ir ao banheiro e encontrar isso:

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Fiz um vídeo contando uma situação engraçada que passei usando essa privada e como desenvolvi “técnicas” para não cair dentro do vaso hahahaha . O vídeo já está no nosso canal no Youtube, agora estou fazendo vídeos com o celular e consigo carregá-los mais facilmente. Clique em vídeos no alto do blog e divirta-se!

Ô povo para gostar de pimenta, credo!

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E quando pensamos que já vimos de tudo…

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Um pastor fervoroso fazia uma espécie de show com um homem dentro de um saco no meio da rua. O cara ficava em pé, depois caia no chão e o pastor lá, rezando e gritando. Fazia sucesso! Se a moda pega no Brasil…

Até logo,

Guta