domingo, 23 de fevereiro de 2014

Capitã Cecile

Na revista Náutica desse mês saíram duas matérias super interessantes. A primeira falando sobre veleiros de brasileiros que estão no exterior fazendo charters. Vivendo do seu sonho. Nós, o Catamarã Ocean Eyes, o Catamarã Pajé, o Veleiro Brava e o catamarã Cascalho, ficou bem bacana. Obrigada Tati Zanardi por ter se lembrado da gente!

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A outra matéria, falou sobre pessoas que trabalham como capitães em veleiros e iates. Uma profissão que exige muito estudo, experiência e responsabilidade, afinal, comandar barcos avaliados em milhões de dólares não é para qualquer um. Procurem a banca de revista mais próxima, a matéria explica tudinho! É Para quem sonha viver do mar e no mar ganhando muito bem! rs

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Quando estávamos em San Blás, conhecemos um casal, a francesa Cecile e o argentino Javier. Ela têm 30 anos. Trabalhou como skipper, hostess, faxineira e por fim capitã de veleiros no Mediterrâneo. Hoje moram em um catamarã em San Blás fazendo charter, e quem cozinha é ele!

Uau, eu nunca havia conhecido uma mulher que fosse capitã como profissão, e tão nova. Passei peroba na cara e dei uma de repórter! rsrsrs enchi a menina de perguntas, e achei a história dela bem legal! Segue a minha entrevista, mas gente, não sou jornalista, só fiquei metida. Então, por favor, dêem um descontinho pelos erros, tá?!

Como você decidiu ser capitã  como profissão?

Eu morava em uma cidade na França que não tinha mar, mas o sonho do meu pai sempre foi morar na costa e ser capitão. Quando se separou da minha mãe, foi em busca do seu sonho. Nas minhas férias eu sempre ficava com ele. Ou ficava no barco que ele estava trabalhando, ou em um barco de um amigo. Até então, era só férias e matar as saudades do meu pai. Um dia, eu assisti a uma regata de veleiros clássicos e fiquei completamente apaixonada. Era aquilo que eu queria fazer da vida. Trabalhar em um veleiro clássico e correr regata.

Conta mais, não pare de falar… rsrsrrsrs

Para começo de conversa, eu deveria falar inglês fluentemente. Como não falava, fui para Inglaterra. Trabalhei como garçonete, faxineira, e ao mesmo tempo estudava o máximo que podia. Em um ano retornei a França com o inglês na ponta da lingua. Só depois disso me matriculei no curso francês para capitão.

PS: Dizem que esse curso francês é um dos mais exigentes e difíceis do mundo…

E como funcionava o curso, qual a duração?

No começo do curso havia umas 40 pessoas. Somente duas mulheres. Foi um ano de curso, estudando das 8 da manhã as 5 da tarde. O governo nos pagava uma ajuda de custo.  O curso é bem prático, com uma única prova no final. Fazíamos manobras com veleiros, com barcos a motor. Aprendíamos como entrar em uma marina se o motor estivesse quebrado, primeiros socorros etc.! Tive que apagar um incêndio de mentirinha, mas que parecia bem real! rs

Durante o curso, umas 10 pessoas haviam desistido. Do total somente 15 passaram.  Eu e a outra menina estávamos dentro, e com notas excelentes!

Boa! Mas e depois, como começou a trabalhar? Fez currículos? Divulgou em sites na internet?

No mediterrâneo, os skippers contratam muito pelo boca a boca. Mesmo com perfil em um site, eles sempre irão procurar saber sobre você. Se alguém te conhece e ao seu trabalho. Como eu não tinha experiência, e nunca havia trabalhado antes, tive que começar aceitando qualquer coisa. Se eu estivesse dentro de algum barco já era lucro. A concorrência é muito grande.

O meu primeiro trabalho foi como hostess em uma lancha de 60’. Eu limpava e arrumava o barco. Infelizmente só trabalhei durante duas semanas. Fui picada por uma aranha minúscula e tive uma reação alérgica fortíssima. O capitão, com os donos do barco a bordo, em plena temporada, me deixou recebendo os primeiros socorros em um hospital e voltou a trabalhar.  Na temporada é assim. Todo mundo correndo atrás, com os patrões a bordo, trabalhando muito para ganhar e manter seus empregos.

O segundo trabalho foi em um iate de 150’ de um milionário Russo. Tive que aceitar o cargo mais baixo desse tipo de trabalho. Limpar os banheiros. ( Ela foi contratada somente para limpar banheiros, fiquei abismada!) Eu era proibida de sair do barco. Chorava todos os dias. Não foi para limpar banheiros que eu havia estudado tanto! O que não me deixava desistir era os 3.000 euros de salário mensal e mais 1.000 euros de gorjeta por semana, para o final de temporada, estava de bom tamanho.

Um dia recebi uma proposta de um capitão que viu meu currículo na internet , não sei onde, e me propôs trabalhar como hostess e marinheira. Ele me disse: Entre na internet e veja fotos do barco. Quando vi, fiquei encantada! Era o veleiro clássico MOOMBEAMIV. Aceitei na hora! Era tudo que eu queria, que sonhava!

O MOOMBEAMIV é um barco clássico, de madeira, feito em 1914. Só faz regatas de clássicos, o que eu havia me apaixonado anos atrás. Em cada regata, recebíamos 30 pessoas a bordo. O barco não têm catracas, nada, era tudo na mão!

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299341_494695073875174_350908215_nPesquisei no google: O Moonbeam IV é um cortador de 35 metros projetado e construído nos estaleiros Fife, em Fairlie na Escócia, em 1914. Entre 1950 e 1959, pertenceu ao príncipe Rainier do Mónaco que lhe atribui o nome de Deo Juvante em honra do lema da família Grimaldi. Desde 2007, Moonbeam IV venceu todas as principais regatas de vela clássica no Mediterrâneo, incluindo Antibes, Barcelona, Mahon e Cannes. Em 2012, participou em três etapas do circuito, com uma tripulação de 30 pessoas. Este é o segundo ano consecutivo que o Moonbeam IV vence o Troféu Panerai para a categoria de Big Boats.

E o trabalho, era legal?

Éramos escravos do barco, trabalhávamos todos os dias, o dia inteiro mas eu sentia uma felicidade que eu nunca havia sentido na minha vida. Até eu conhecer o Javier.

PS: Ela foi para o Chile com o barco. Durante a parada na Argentina conheceu o Javier, hoje seu marido. Ai ferrou tudo! rsrrsrsr 

Mas e depois, o que aconteceu?

Tive que sair do barco porque a paixão que senti pelo Javier era maior que o trabalho. Fiquei um tempo na Argentina, quando tive uma proposta de trabalho em um veleiro clássico de 76’ como capitã! O dono queria uma capitã comandando seu veleiro, está na moda. Eu  e mais quatro pessoas. Consegui colocar o Javier trabalhando como cozinheiro. Trabalhei nesse barco até descobrirem que o Javier trabalhava sem o curso básico exigido pela capitania dos Portos de lá. Um curso de primeiros socorros que o Javier não quis fazer. Ele não quer viver no mar, não gosta dessa vida. Esse é o meu grande problema.

Saímos desse barco e recebemos a proposta de morar a bordo de um catamarã 42’ em San Blás fazendo charter. E aqui estamos! Sou capitã do barco e o Javier o cozinheiro. Pretendemos trabalhar, juntar uma grana e depois voltar para o interior da Argentina para vivermos junto da família dele.

Eu me imaginava casando e vivendo a bordo com meus filhos. Porém nem tudo é possível.

Mas mesmo se ele não fosse trabalhar com você, na temporada, se você trabalhasse sozinha, não ganharia mais?

Com certeza que sim! Aqui em San blás trabalhamos bem, mas temos que pagar 20% de comissão para a agência de turismo que somos filiados.

PS: O dono do barco mora na França e para não ter despesas com marinas etc. deixa o casal usando o barco em troca dele ser cuidado. Um tipo de parceria cada vez mais comum.

O Javier não aceita que fiquemos separados, mesmo que somente nas temporadas. Nós mulheres esperamos nossos maridos do mar: pescadores, navegadores etc. Mas os homens, não esperam as mulheres…

Você disse que muitos proprietários de barcos querem mulheres como capitã, que está “na moda”, como assim? Por que?

Simplesmente porque gostam de mostrar que quem comanda o barco deles têm um par de peitos! No mediterrâneo não existe crise financeira. Ricos ficam sempre mais ricos. Todos têm muita grana e sempre querem se diferenciar. Ter uma capitã é um diferencial.

Você têm alguma história engraçada?

Várias! Quando eu trabalhava no iate Russo, tive insônia. Uma certa noite, acordei e fui fazer um sanduiche para mim na cozinha. Um casal de convidados apareceu e pediu que eu fizesse sanduiche para eles também. Gostaram tanto que no dia seguinte me deram 300 euros de gorjeta. Dai, fui promovida a fazedora de sanduiche, e tinha que ficar esperando a noite inteira, caso eles quisessem comer. Os convidados saiam todas as noites para festas em terra, sempre tinha que ficar alguém esperando quando eles voltassem, para que os auxiliassem no que fosse preciso. Em uma dessas noites o imediato (braço direito do capitão) me mandou apertar um botão que comandava as luzes da popa do barco. Eu muito cansada me confundi e apertei o botão de incêndio. Uma buzina altíssima começou a soar, portas anti-chamas a descer, uma confusão geral! A sorte é que os convidados estavam tão chapados da festa que não ouviram nada, mas o capitão me deu um esporro daqueles.  

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Até a próxima,

Guta

 

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