domingo, 16 de março de 2014

Enfim, rumo a Polinésia.

A maioria dos leitores que nos acompanha, está conosco desde o começo, quando criei o blog durante a construção do Guruçá Cat. Muitos perguntam  o porquê de termos vendido o Cat Guruçá (casco azul), o primeiro catamarã que Fausto projetou e construiu para construirmos o Guruçá Cat (casco amarelo). Quando Fausto projetou o Cat Guruçá, a ideia era viver no mar e do mar. Isso já seria o máximo! A intenção era fazer charter na costa brasileira e morar a bordo. E o barco foi projetado para isso. Começamos a trabalhar em Angra com somente R$ 30 no bolso. Isso mesmo, não tínhamos mais dinheiro nenhum. Começamos do zero, com muitas informações erradas e pessoas querendo nos prejudicar.  Nosso primeiro trabalho, foi com uma família que fez do Guruçá Cat de pousada para irem a uma festa em Paraty. E assim foi.  Trabalhamos bastante até equiparmos o barco e vivermos bem, mas nunca estamos satisfeitos  não é!? Acessando blogs de outros velejadores, recebendo e-mails com fotos de amigos pescando lagostas em ilhas perfeitas (né Luiz Manoel?), a vontade de sair do Brasil foi aumentando. Com o Cat Guruçá não daria. Era um barco muito grande (62’) para nós dois em uma volta ao mundo. Decidimos vendê-lo e construir um catamarã que Fausto projetou especialmente para essa viagem.  Quando vendemos o barco, eu já tinha um charter marcado a meses para o reveillon. Então o vendemos na condição de somente entregar o barco depois do charter. O novo dono só aceitou se entregássemos o barco um dia depois desse charter, só Deus sabe o que passou na cabeça do cara, mas não tinha conversa. Então, depois de sete dias trabalhando com uma família com cinco crianças, passamos uma noite inteira fazendo nossa mudança para um quartinho que alugamos em terra. Barco vazio, limpo só esperando o novo dono, que só apareceu uma semana depois.

Já havíamos comprado a madeira para a construção do novo barco que só chegaria no terreno que havíamos alugado, uns quinze dias depois da mudança, porém, durante esse mesmo charter do reveillon, uma vizinha nos avisou que a madeira havia chegado e que durante a noite estavam roubando-a. Dá para imaginarem?  Desde o começo foi tudo muito difícil! Uns meses depois de começarmos a construção, houve uma tempestade fortíssima em Angra dos Reis, que literalmente levou nosso galpão embora. 

Foram três anos e três meses trabalhando quase todos os dias. Quando tirávamos folga, era para resolver alguma coisa relacionada ao barco. Trabalhávamos de 6 da manhã a noite. Tínhamos um prazo no aluguel do terreno.  Chegou uma hora que estávamos completamente estressados. Brigávamos constantemente. Fausto teve insônia e estafa. Eu nem sei o que tive, vivia como um siri na lata, se olhassem torto para mim, já queria morder! Foi sim desgastante, cansativo. O desânimo bate a porta muitas vezes. Têm que ter muita força de vontade para não desistir.

Logo que colocamos o barco na água (que foi um verdadeiro parto), os motores não funcionaram quando a maré subiu, no penúltimo dia que teríamos maré suficiente para flutuar, se não, só teríamos outra maré meses depois. O cara que fez a revisão dos motores, esqueceu a saída do boiler aberto, toda a água doce que refrigerava o motor saiu. Imaginem, imaginem a tensão!

Na nossa primeira navegada de Angra dos Reis rumo a Recife, em Cabo de São Tomé, batemos em uma baleia. Um dos eixos e o hélice, ficaram em forma de L. Encalhamos o barco em Vitória, consertamos e fomos em frente. Quando começamos a velejar, o mastro que era de madeira de um projetista americano e que foi reforçado com fibra de carbono, começou a fletir. Era um mastro asa, e não conseguíamos moitões no Brasil que suportassem a força que ele exercia. Quebramos vários moitões, e jogamos muito dinheiro fora. Estávamos com o barco lotado para uma REFENO daquele ano, em Salvador desistimos da regata. Mais um problema para resolver: Recolocar tripulantes em outros barcos, devolver dinheiro dos que já haviam pagado. Nessa hora é que vemos a índole das pessoas. É nessa hora é que as pessoas deixam toda a sua inveja transparecer. Alguns veleiros que tinham vagas para tripulantes na regata, com o barco menor do que o nosso, um serviço inferior ao nosso, cobraram mais caro para os nossos tripulantes. Escutei um capitão dizer: Quem está precisando de vaga é você, se vire! 

Tiramos o mastro em Recife, e em um mês construímos um novo mastro que Fausto projetou. Não flete nadinha. Está funcionando perfeitamente bem.

Tentamos sair do Brasil três vezes. Quando não tínhamos alguma coisa para fazer no barco, eram problemas pessoais. Quase desistimos novamente, quase nos separamos novamente.

NÃO FOI FÁCIL! CONSTRUIR UM BARCO NÃO É FÁCIL! FAZER CHARTER NÃO É FÁCIL. JUNTAR DINHEIRO PARA VIAJAR EM UMA VOLTA AO MUNDO NÃO É FÁCIL!

Essa era a nossa casinha que morávamos em Monsuaba-Angra dos Reis, durante a construção do barco. Era um barraquinho para falar a verdade. Não tinha piso, era areia, coloquei tapetes para melhorar um pouco a situação… O banheiro era do lado de fora da casa. Não podíamos gastar dinheiro reformando uma casa. Tudo era para o barco.

Fotos da construção 1 151

DSCF3560A cozinha.

DSCF3561

construção quilha 005

construção quilha 006O armário das máquinas.

construção quilha 004Nossa cama comprada em uma loja de móveis usados e um expositor da Elma chips, que funcionou como armário de roupas.

Construção da cabine 036Nossos mascotinhos na época. O gato sumiu. E o Sansão, que não se adaptou ao barco, hoje têm uma vida de reizinho morando com meus pais.

O banheiro é imostrável! rs. Mas, para compensar tínhamos maravilhosos vizinhos: A Vera e família, o Stefan, o Walter, o Dudu, o Dr.Rui e toda Monsuaba, que nos acolheu com todo carinho! Foi assim que vivemos por esses anos, só assim poderíamos sonhar com essa volta ao mundo.

Hoje estamos aqui, na cidade do Panamá. Estamos seguindo para Galápagos por esses dias, depois Marquesas, a porta de entrada da Polinésia.

Esse post é para quem está chegando agora e não conhece a nossa história; Para quem acha que somos milionários e “bons vivants”; Para as pessoas que diziam que o projeto do Fausto não funcionaria; Para eu me lembrar de como foi difícil,  de que eu tenho que aproveitar o máximo que posso dessa viagem, e principalmente para os colegas que também estão construindo, não desanimarem e seguirem em frente, pois o resultado é compensador, apesar de que agora termos menos “amigos”.

E depois? Quando voltarmos ao Brasil, se voltarmos ao Brasil, O que faremos? Se eu disser que Fausto pretende construir outro barco vocês acreditam? Coisa de doido, depois de tudo que eu escrevi não é?! Mas ele gosta de sofrer construir, de projetar e ver o projeto se concretizando. Ele investe o tempo, o suor e o dinheiro dele no projeto.  Eu ainda não me acostumei com a idéia. Todos os dias ele pede minha opinião no novo projeto, me mostra alguma coisa aqui, outra ali. Até dar o meu nome ao barco já rolou. Mas nós já brigamos e ele apagou o nome. Tá assim agora, o barco se chamaria GUTA, mas quando brigamos ele muda de ideia. rs

Pode ser que a construção aconteça. Morando em uma casa de verdade, sem prazos, sem a ideia fixa de dar uma volta ao mundo. Só construir, por prazer. Se é que isso é possível..

O futuro a Deus pertence! Por enquanto, só quero aproveitar, tirar fotos, fazer vídeos e relatos “massas” para mostrar a vocês.

Domingo que vem continuo com os posts programados, e assim que puder, daremos notícias por aqui. Muitas vezes não consigo escrever aqui no blog mas sempre dou notícias pelo facebook. É só curtirem a página AQUI.

Abração a todos!

Guta Smiley piscando

 

Comentários
4 Comentários

4 Comentários:

Mais um... Cicloturista disse...

Guta, Fausta;
me emocionei lendo Enfim Rumo à Polinésia. sou leitor testemunha do que escreveu, imaginava os percalços,mas tornado claro para os leitores que admiram o casal pelo que fizeram e farão, o mínimo que farei é interceder à Deus bênçãos para que desfrutem em plenitude a viagem de Volta ao Mundo.
abraços, Paulo.

Mais um... Cicloturista disse...

Guta, Fausta;
me emocionei lendo Enfim Rumo à Polinésia. sou leitor testemunha do que escreveu, imaginava os percalços,mas tornado claro para os leitores que admiram o casal pelo que fizeram e farão, o mínimo que farei é interceder à Deus bênçãos para que desfrutem em plenitude a viagem de Volta ao Mundo.
abraços, Paulo.

cris disse...

Queridos, Amei o blog de voces, melhor ainda foi saber que estão a caminho da Polinésia. Bons ventos e que Iemanja leve voces com muito carinho. Beijos Cris Delphis

Jorge disse...

Sei bem o que vc fala Guta pois estou no meio deste processo com o Vivian. Mas vcs sao uma inspiração.

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