sexta-feira, 27 de junho de 2014

Galápagos- Marquesas

O cretino que deu o nome ao mar do Pacífico deveria tomar uma surra de vara de goiabeira para largar de ser mentiroso! Como dizia o Tião Macalé: Nojento!

Enquanto eu não fui chata o suficiente para convencer ao Fausto a escrever os comentários técnicos sobre essa travessia, vou falar da minha maneira como foi. Foi ruim, foi cansativa (principalmente para o Fausto), foi, foi, foi uma …

Recebemos um casal de tripulantes em Galápagos, o Werner e a Glaé e depois de passearmos em um vulcão na ilha Isabela, zarpamos dois dias depois. Quando estávamos há 20 milhas de distância de Isabela o enrolador da genoa quebrou, ficando preso somente pela adriça. Como não sabíamos o que havia acontecido, decidimos retornar a Isabela.  O problema foi o esticador de 12mm que com menos de dois anos de uso que havia se partido. Como esse esticador fica dentro do bulbo da genoa não víamos o problema. Havíamos colocado esse esticador novo em Recife quando trocamos o mastro há dois anos, não esperávamos que fosse se quebrar tão rápido. O pior é que os dois esticadores que tínhamos de reserva, novos, estão grimpados, não podem ser usados. Como em Isabela não tinha nenhum tipo de oficina para um possível conserto do esticador, acabamos por retirar e guardar a genoa e o enrolador. Nem vou descrever o trabalho do cão que foi fazer isso para poupá-los da agonia.

20140427_134553Antes

20140521_201400Depois

Acabamos seguindo viagem com somente a genoa 2, a pequena, e tínhamos que manter o barco no terceiro rizo para equilibrá-lo. Os primeiros sete dias de viagem foram de muita chuva, um mar grande, e ondas que vinham de todos os lados, com pouquíssimo vento. O tamanho do mar não condizia com o pouco vento. Como não desenvolvíamos velocidade o Guruçá apanhou  muito das ondas, porrada mesmo, ondas que freavam o barco, que quebravam e varriam de proa a popa. Nós não velejávamos, quicávamos no mar. Para cozinhar era difícil, para andar era difícil, e a toda hora alguém tinha um novo hematoma no corpo, a gente bate e nem sabe onde e como foi. E isso em um catamarã de 54’, nem consigo imaginar o inferno que deveria ser estar em um monocasco naquela condição de mar.

Imaginem uma estrada e você dirigindo um carrão 4x4 com tração etc… você está andando em uma estrada asfaltada e derrepente o carro cai em um ressalto e começa a andar em uma pista de chão toda esburacada, com poeira, e pedras vindo em sua direção. Do nada você retorna ao asfalto, e pouco tempo depois volta a estrada ruim novamente. Imaginem uma viagem de 22 dias assim, revezando entre o asfalto e essa estrada ruim. Cansativo não? No mar então…

IMG_7857Pirajá

IMG_7868Faísca modelando…

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IMG_7862Peixinhos e lulas voadoras, todos os dias, um montão deles pelo convés.

A rotina a bordo era comer, ler, dormir, comer, ler, dormir. Devo ter engordado uns cinco quilos, ansiosa eu devorava tudo que via pela frente. Meus estoques de doces acabaram, e aqui no Tahiti é tudo caro, motivo para eu não comprar mais (cof, cof…).

Na cidade do Panamá, poucos dias antes de seguirmos rumo a Galápagos, entregamos duas botijas de gás com a válvula americana para serem enchidas. Perto da marina havia um pessoal que fazia esse tipo de serviço e também outros como o serviço de lavanderia. Precisamos trocar o gás durante a viagem e para minha decepção o gás é horrível. Têm cheiro é “lento” e deixa as minhas panelas todas pretas. Parece que estou cozinhando em um fogão a lenha, além de ter sujado todos os meus panos de prato. Pagamos U$ 35 para encher cada botija de 8 kg e os caras fazem uma sacanagem dessas. A orelha deles deve ter caído de tanto que os chinguei!

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Como só chovia, para o nosso azar, tivemos que ligar os motores para recarregar as baterias. Foi frustrante. Desde que colocamos o barco na água só tivemos que fazer isso duas vezes e porque nossas baterias estavam morrendo e não seguravam mais carga se ficássemos mais de dois dias sem sol. Com dois GPS ligados, VHF, AIS e geladeira, não teve jeito.

Um dia não tínhamos quase nada de vento, e resolvemos içar nosso balão. Compramos esse balão de um amigo que nunca havia usado em seu barco, antes mesmo de começarmos a fazer o Guruçá Cat. O balão estava tão bem guardado que nem sabíamos onde. Como usamos as duas genoas em asa de pombo, nunca havíamos tido a necessidade do balão. Fausto eu e os dois tripulantes, o Werner e a Glaé fomos colocar o bicho para cima. Na primeira tentativa, não desenrolamos direito e ficou encharutado. Baixamos a vela, desenrolamos e BUM, a vela abriu. Deu um tranco que parecia que havíamos dado uma chicotada no barco que começou a andar. Talvez por falta de costume, eu fiquei tensa durante todo o tempo que a vela ficou içada. De vez ou outra a vela dava cada trancão (panejava) que assustava. Estava tudo muito bem, velejávamos um pouco e surgiu a grande dúvida: baixar a vela ou deixá-la içada durante a noite? Apesar da tentação, Fausto decidiu por abaixá-la. Se entrasse algum vento durante a noite, seria a treva!  Novamente todos os tripulantes a postos, e Fausto gritando: solta a adriça Werner! O Werner soltou, Fausto segurando a adriça subiu uns 2 metros e quase foi para fora do barco. Quando eu já estava comemorando, fiquei viúva! o vento me mandou ele de volta… novamente ele subiu, e na descida veio Fausto, balão, tudo junto. Nós três nos jogamos em cima do balão para abafá-lo, e ofegantes, comemoramos o sucesso para operação. Fui muito orelhuda de nem ter cogitado colocar a câmera para filmar essa cena, vocês iriam se divertir! Foram segundos, mas segundos emocionantes! Balão sem a tal camisinha no Guruçá, acho que nunca mais! Agora, aquela velona em cima é lindíssimo!

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20140512_141519Fiquei na dúvida se nessa foto Fausto aponta para a vela ou se quer dizer que foi a primeira e última vez.

Nessa noite entrou um mega pirajá e graças a Deus, havíamos baixado o balão. Pirajás. Deram, e estão dando trabalho ao Fausto até agora. O tempo todo navegamos com pirajás que felizmente não pegamos muito fortes, mas que vinham em direção contrária ao nosso rumo, ou seja, temos que ficar de olho para não darmos um jibe involuntário etc.…  Como eu disse no início, os comentários técnicos serão de Fausto.

Chegamos depois de 21  dias e algumas horas e acabamos arredondando para 22 dias. Depois, em terra, conhecendo outros velejadores, é comum perguntarmos quanto tempo cada um levou na travessia. Um catamarã italiano de 50’ levou 23 dias e oito horas. Um monocasco que não me recordo o tamanho, respondeu-me: levamos 22 dias, três horas e trinta e sete minutos. Fiquei encafifada de quando eles encerraram a contagem. Será que foi quando jogaram a âncora? Deviam ser regateiros! Punk

O costado do Guruçá ficou bem sujo, todos os barcos chegam sujos. Sabemos quem é recém chegado pela sujeira no costado. Se bem que só fomos limpar o nosso em Fakarava, nas Tuamotous. Depois de 22 dias de mar, quem se anima de pular na água e limpar costado?! Queremos mais é descer em terra, comer baguete e tomar sorvete!

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O blog ficou desatualizado por dois domingos seguidos, em parte porque está sendo tudo muito corrido (estou escrevendo esse post as 2 da manhã  já aqui no Tahiti) e pela dificuldade ao acesso a internet nas Marquesas e Tuamotous. Infelizmente daqui para frente o acesso a internet ficará cada vez mais difícil  e consequentemente, menos postagens no blog.

Até a próxima!

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