domingo, 28 de setembro de 2014

Papeete, capital do Tahiti- Parte 1

O território da Polinésia Francesa é repartido em cinco arquipélagos: Ilhas Sociedade, Tuamotus, Gambier, Marquesas e Austrais. Tahiti é o nome da maior ilha da Polinésia Francesa e Papeete sua capital. Concentra cerca de 70% de toda população polinésia, ou seja, cidade grande.
Saímos do atol de Fakarava com um ventinho gostoso e fizemos uma velejada prazerosa atrapalhada somente pelos pirajás, que apareciam constantemente fazendo Fausto trabalhar bastante na regulagem das velas.  Chegamos em Papeete de manhã, com vários outros veleiros. Tinha fila para entrar no passe porque o canal de entrada fica ao lado do aeroporto e para passarmos, temos que pedir autorização a torre de controle no canal 12. Eita que apesar de ter treinado o que eu diria a torre de controle, na hora fiquei nervosa e misturei inglês, com espanhol e francês. Com toda certeza o dia do cara foi mais divertido com a brasileira trilíngue de araque gaguejando. No final das contas ele deu a autorização para passarmos rapidinho. Alguns barcos ficam esperando um tempão pela autorização.
Começamos a entrar no canal. Bem marcado, impossível de errar mas nada é impossível! Eu e os tripulantes estávamos na proa do barco, filmando fotografando e Fausto se distraiu. Avião pousando, euforia da chegada… Aqui na Polinésia eles usam o sistema europeu de marcação, onde as boias verdes ficam ao nosso boreste de quem vem do mar para terra, o contrário do Brasil. Então na distração, Fausto viu a bóia verde e foi deixando ela por bombordo. Nessa hora eu estava filmando e ouvi Fausto gritar: Olha só. Quando vi os corais eu desliguei a câmera e sai correndo (orelhuda) poderia ter deixado ligado porque vocês poderiam ouvir o BUM que se deu logo em seguida. Fausto disse: Encalhamos! mas não havíamos encalhado, ele conseguiu manobrar e saímos de cima do coral. Estávamos sem lemes, e Fausto continuou guiando o barco só com os dois motores.
Fausto sempre me disse que se perde um barco não na saída de uma viagem, e sim na chegada. O capitão, geralmente cansado relaxa, e ai acontecem os acidentes. Foi exatamente isso que aconteceu com ele. Cansado, relaxou e BUM!
Sempre que falamos com a mãe de Fausto, uma senhora de 94 anos ela me pergunta se Fausto está comendo direitinho. Acho graça ela perguntar isso, porque Fausto vive com fome! Ela sempre diz: Quando ele parar de comer é porque está doente viu!? Estou casada com Fausto há 13 anos e ele nunca ficou doente, quando gripado, raras a vezes, ele sempre comeu.
Quando fundeamos, com a moral baixa, Fausto logo foi mergulhar para analisar a situação do casco, leme, hélice. Para nossa sorte, empenou o eixo do leme e nada mais. Como Fausto já havia projetado o leme para ser tirado em casos como esse, seria fácil retirá-lo para colocar no conserto. Decidimos deixar para tirar o leme no outro dia, e dai Fausto adoeceu, segundo dona Palmira. Ele não quis comer no café da manhã, no almoço e jantar. Estava se sentindo mal, com o que havia acontecido, coisa que eu entendia perfeitamente porque também vacilei. Eu e mais dois tripulantes estávamos na proa do barco e não reparamos a bendida bóia do lado errado.
No dia seguinte fomos a Taina Marina nos informarmos sobre quem consertava eixos de leme e nos indicaram o Michel, um franc:es. Fomos at[e o cara e pior impress’ao impossível! Ele foi grosseiro, nem nos deixava falar!
- Tragam o leme aqui que conserto! Virou as costas e saiu. Fomos atrás de outras pessoas mas sempre caíamos no Michel – O mal-humorado.
Foi mais difícil colocar o leme no bote para levá-lo em terra do que tirá-lo do barco, o projeto de Fausto funcionou perfeitamente.
O Michel nos recebeu mal novamente. Mandou deixarmos o leme encostado em um coqueiro que no dia seguinte ele levaria a uma oficina para o conserto. Só que Fausto queria explicar como deveria ser feito o conserto, uma inclinação deveria ser obedecida, mas o cara nem quis escutar. Não tinha jeito, seria o que Deus quisesse!
Passara-se uns quatro dias e nada. Mais quatro e nada de sabermos do leme, só patadas do Michel. Começei a ficar preocupada. Estávamos com dois tripulantes em um charter a bordo, tínhamos que continuar a viagem. Então pensei, pensei e pensei. Como fazer o Michel mal humorado adiantar o conserto do leme? O Michel é francês, e o que um francês mais gosta de fazer? COMER! Pimba! É isso! Vou “conquistar” o cara pela boca. Fiz um bolo de milho com goiabada,( receita aqui) e levei uns pedaços para ele. Até treinei falar somente em francês, ele lógico, odiava falar inglês. De cara ele me perguntou o porquê do bolo?! Respondi que como ele estava nos ajudando e tínhamos um prazo para pegarmos o leme, quis dar um presente. Ele abriu o pote, cheirou (estava quentinho), fechou o pote, colocou de lado e falou um mercy bem murcho. Pelo menos agradeceu, pensei. Agora é só esperar. Se ele gostar, tudo bem. Se não gostar, dai, ferrou de vez.
No dia seguinte, passando pela oficina do Michel, ele me chamou. Perguntou se eu havia comprado o bolo! Respirei fundo mil vezes mentalmente para não o mandá-lo para aquele lugar, e respondi que não, eu havia feito! O bolo era de que? Perguntou. -Flocos de milho e goiabada. -Mas não têm flocos de milho aqui no Tahiti, ele ainda questionava (que raiva). -Eu tenho a bordo desde o Brasil, e também comprei em Cartagena na Colômbia, eles usam muito flocos de milho por lá. Enfim convenci o Michel e ele mudou da água para o vinho! Me deu um sorriso e disse que o bolo estava delicioso! -Bom que gostou (alívio!), mas e o meu leme? -Seu leme está pronto, no porta malas do meu carro. Caramba, melhor impossível!
Fausto conferiu o ângulo do eixo do leme, e felizmente, estava certinho! Depois fomos saber que ele consertava no mínimo uns três lemes por semana…
A partir daquele dia, o Michel não podia me ver que sorria. O que um bolo não faz… Depois passei o cadeado na porta do forno. Pagamos 100 euros para encher duas botijas.
Para colocar o leme foi tranquilo também! Só precisei mergulhar para colocá-lo na posição correta. Fausto puxou e pimba, subiu feito manteiga. Estava reinstalado!
Só depois do leme reinstalado é que relaxamos, e fomos conhecer o Tahiti.
Uns dias depois, chegou o veleiro da “grande família” fiz um post sobre eles recentemente. Eles também bateram em um coral mas uma batida grave. Quebrou todo o leme, empenou o eixo e hélice. Diferente do nosso, o leme dele não foi projetado para ser retirado com facilidade. O cara não sabia o que fazer. Fausto foi ao barco, inventou uma peça na hora e conseguiram retirar. Para ele não se assustar, avisamos sobre o humor do Michel e passei a dica do bolo.
Com a marina lotada, os australianos montaram estandes de divulgação do seu país. Depois fomos saber que os Neo Zelandeses fariam a mesma coisa em Moorea. Os dois disputam velejadores que precisam fazer serviços a bordo ou deixarem seus barcos em segurança para voltarem aos seus países nas festas de fim de ano. A disputa é acirrada.  Conversando com os Australianos eles diziam: Não vá para Nova Zelândia! A travessia é perigosa e lá é muito frio. Os Neo Zelandeses: Não vá para Austrália! Não é protegido de furacões, são chatos, e os preços mais caros que os nossos. Bem, nós não iremos para nenhum dos dois mas foi bom saber que existem países que valorizam a estadia de velejadores estrangeiros.
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Continua…



 


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