domingo, 8 de março de 2015

Ilhas Salomões parte 2

mapa Salomoes

O luiz Manoel e a Marli do veleiro Green Nomad ficaram meses nas Salomões e nos passaram praticamente um roteiro para conhecermos várias ilhas e lagoons por lá, mas como não tínhamos tempo pois queríamos ir para as Filipinas e pagar mais US$ 300 pesaria no orçamento, optamos por conhecer a capital Honiara, seguindo para o Marovo Laggon (o maior lagoon de água salgada do mundo, segundo os guias) e depois fazer a saída do país em Gizo a antiga capital.

No dia 15 de outubro saímos de Honiara até Mbili, entrada do Marovo Lagoon, tudo no motor. Zero vento. Assim que fundeamos um nativo veio com sua canoa nos orientar a fundear mais próximo da vila. Os nossos programas de navegação Open CPN e Navionics não eram confiáveis por toda as Salomões, principalmente dentro dos laggons, e sinalização não existia.

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O Paul foi bem legal nos orientando e explicando como funcionava as coisas na vila. Eu já estava meio ressabiada, querendo saber se tinha que dar algum “presente” ao chefe da vila, coisa obrigatória no passado. Felizmente essa coisa de chefe acabou por lá. Todos têm direitos iguais. Combinamos de conhecer a vila no dia seguinte. O dia seguinte amanheceu chuvoso, e cansados da viajem, quase desistimos de ir em terra. Ainda bem que não fizemos isso. Quando desembarcamos, havia praticamente uma feira de CAVAS, aquelas esculturas em madeira que mostrei no post anterior. Escultores locais e das ilhas vizinhas, levaram suas CAVAS para que pudéssemos vê-las. Fiquei preocupada porque era muita gente, e muita escultura! Daí o Paul nos disse que não tínhamos a obrigação de comprar nada. Que a “feira” era montada sempre que um veleiro chegava, e éramos um dos primeiros da temporada. Os caras ficam o ano inteiro fazendo as esculturas, esperando que chegassem veleiros para negociá-las, só que, ano após ano, a quantidade de veleiros por lá, está diminuindo. Eles ficavam perguntando: Vocês estão sozinhos? Estão vindo outros veleiros com vocês? Fiquei com dó, éramos uma esperança e eu sabia que não havia outros veleiros atrás de nós. Complicado viu?! Fizemos um acordo. Baixou meu espírito cigano e propus fazermos troca. Não tínhamos dinheiro para comprar tanta escultura, então, eu levaria o que tinha a bordo e faríamos trocas do que eles precisassem. Todos concordaram na boa. Do que vocês precisam, perguntei: – De qualquer coisa, foi a resposta.

Levei roupas, edredons, lenções, sabonetes, perfumes, escova e pasta de dentes, desodorantes, shampoo e condicionador, pratos, talheres, cadernos, lápis de cor, chapéis, bonés. Muita coisa nova ( comprei em Samoa Americana com esse propósito) ou em um bom estado de conservação. Como estava chovendo, um nativo disponibilizou a varanda da casa para fazermos as trocas. Eu coloquei tudo que tinha no chão e eles avançaram. Pegaram tudo. Tipo assim, fiquei de cara. Que tipo de troca é essa? Depois fui entender. Cada um pegou o que precisava e depois tive negociar com todos, o que eles haviam pegado com a canva que queriam me dar em troca. Peguei muitas esculturinhas em madeira de tartarugas, esculturas em um tipo de semente com motivos marinhos, arraias. Tudo levinho e legal para darmos de presentes quando voltarmos.  “Tomei na cabeça” em muita coisa, mas deixei pra lá.

O pessoal era meio sem noção. Pelas esculturas maiores, pediam telefones celulares, televisão, aparelho de DVD, rádio, e ainda queriam  dinheiro de volta. Claro que as esculturas tinham seu valor, mas pelos preços praticados na capital (que pesquisei antes, não sou boba nem nada) na vila, direto na fonte, o valor devia variar dependendo do tamanho do barco entendem? Na capital, esculturas sendo vendidas por atravessadores os preços eram inferiores. Preferi ficar só nas trocas, e deu para trocar com todos.

Uns dias depois, apareceu um senhor que eu havia conhecido na feira de artesanato na capital Honiara, que insistiu para conhecermos suas esculturas. Fausto ficou impressionado com uma gigantesca (não posso mostrar porque será presente), e quis a bendita. Fausto querer comprar alguma coisa é raro. Propus troca novamente. Se eles precisavam de dinheiro para comprar alguma coisa, talvez eu tivesse essa alguma coisa, num é?! E tinha. A escultura foi feita pelo filho desse senhor (o dom é passado de geração em geração), um rapaz de 20 anos que tinha dois filhos pequenos e provavelmente uma esposa jovem também. Ele me disse que precisava de dois colchonetes para os filhos dormirem (ambos dormiam em colchões de palha). Pronto, foi só ele falar isso que a negociadora de araque, deu além dos colchonetes, lenções, cobertores, roupas para a esposa, pratos e talheres. O interessante é que o cara não pediu nada para ele, só queria para a família. Colocando em números, no final das contas eu dei mais do que a escultura valia. Mas dei mesmo, de coração. Dai o cara soltou: Além dessas coisas, para terminarmos a troca eu quero 200 Salomões dólar. Poxa, fiquei até chateada. – Faz o seguinte. Leve tudo, é seu. Não quero mais a sua escultura, mas dinheiro eu não dou. – Senhora, por favor, nós precisamos muito desse dinheiro. Muito mesmo. – Vocês precisam de algum remédio? Têm alguém doente na família? – Não, não. Precisamos pagar o dízimo a igreja. Se não pagarmos, não poderemos frequentá-la. O que se faz ou se diz numa hora dessas? O cara implorou pelo dinheiro para pagar dois meses de atrasado na igreja. Demos o dinheiro. Tchau e benza. Mande um abraço no filho da puta do seu pastor!

No outro dia o Paul me explicou tudinho como funcionava a igreja da vila. A religião é a do tipo que no dia de sábado não se pode fazer nada, então eles fazem tudo na sexta (principalmente as refeições) para o sábado ser somente dia de igreja. Todas as famílias são obrigadas a dar no mínimo 100 Salomões dólar por mês. Dinheiro que eles tiram não sei de onde. Como muitas famílias não estão conseguindo pagar, o pastor que mais vive na capital do que na vila, em sua boa fé, estava negociando as esculturas com Neo Zelandezes e Australianos. Se não pagassem em dinheiro, podiam pagar em cavas e obviamente os estrangeiros não pagavam somente 100 Salomões dólar por elas.

- Mas Paul, para que sua igreja, aqui no meio do nada, precisa de dinheiro? -O nosso pastor têm que ter um salário (justo), e além disso, esse dinheiro vai para a sede, onde fazem um jornal com “notícias” religiosas. Como em Samoa Americana, tudo virou pecado: As danças (proibidíssimas), as regatas de canoas, os cânticos antigos, comer carne de porco, crocodilo e tubarão (animais do Diabo)

- Mas Paul, seu bisavô e avô dançavam para comemorar uma boa caçada de porco do mato e comiam um belo churrasco. Será que eles foram para o inferno por causa disso?! – Não, não, eles foram perdoados porque naquela época não tiveram acesso as palavras de Deus, mas agora que temos acesso, temos que agir da forma correta. Tá bom para vocês?! Esses pastores, iluminados por “Deus” arranjam desculpas para tudo!

Passamos umas duas semanas nesse cantinho lindo:

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20141009_143044O Guruçá serviu de abrigo para lulas.

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Quando perguntei o nome desse menino na foto acima ele respondeu-me SACO. Eu disse: Como? Seu nome e SACO? Sim, ele respondeu com uma carinha do tipo: Qual é o problema?! -Nice name! O que eu poderia dizer?! Ele abriu um sorriso com o elogio. Tadinho, se ele fosse para o Brasil, seria muito zuado, certamente todos que escutassem o nome dele teriam a mesma reação que eu tive, mas pensando bem, se existem pessoas que se chamam PINTO porque não SACO? Smiley piscando

O Saco usava um short bem maior do que ele, onde uma linha de pesca tentava fazer  o papel de um cinto e claro não funcionava. Ele ficava correndo segurando as calças por todo o lado. Uma agonia!  Procurei o menor short que eu tinha a bordo, o menino estava com sorte porque era novinho eu nunca havia usado (uns quilinhos a mais, sabem como é). Dei o short para o Saquinho mas a mãe logo o guardou, me disse que ele usaria somente nos dias de igreja. Tadinho do Saquinho, continuou segurando as calças, eu não podia fazer mais nada.  Conversando com Fausto, suspeitamos que a mãe pegou o short para ela, que depois seria passado a irmã e o Saquinho só Deus sabe quando e se usaria. Também achamos que as crianças andavam na vila peladas, só colocaram roupas porque estávamos por lá.

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A média de filhos por lá eram de são cinco, pelo menos a maioria das famílias que conhecemos, tinham cinco filhos. O Saquinho tinha quatro irmãos e provavelmente teria mais pois a mãe dele só tinha 30 anos. Pelo que conversei, não existe nenhum controle de natalidade por lá, pílulas anti concepcionais?! Nem sabem o que é isso. Elas sabiam da cirurgia para pararem de ter filhos mas por motivos óbvios a igreja proibia. A mãe do Saco contou que o pastor ou sei lá quem, havia dito que todas as mulheres que faziam essa cirurgia morriam, um castigo de Deus. Eles não conseguem pensar por sí mesmos e apesar de terem acesso a educação,  a igreja os fazem de gatos e sapatos. Não conseguem ver um palmo a frente, e a vida continua. 

Como gostamos de ficar o máximo que pudermos pelos lugares que passamos para exatamente conhecer o dia a dia das pessoas, com o tempo, aquele sentimento de dó que eu tinha logo que cheguei acabou. Realmente faltava bens materiais como os que citei acima, mas comida não faltava, pelo contrário. Eles só não tinham mais variedade de comida devido a preguiça. Não comiam carne de porco, tubarão e crocodilo (animais do demônio) mas eram poucos que criavam galinhas. Viviam praticamente da pesca, do coco que era usado como se fosse arroz, aipim, bananas. Não tinham uma horta, não plantavam praticamente nada. Vi as crianças pescando ou com estilingues matando pombas para levarem para casa. Eu tinha sementes de abóbora e chuchu. Ofereci para plantarem mas ninguém quis. Não nascia lá segundo eles. Caraca, numa terra maravilhosa daquelas, qualquer coisa que jogasse nasceria, ainda mais abóbora e chuchu. Fui percebendo, que as roupas que eles usavam, cheias de rasgos e descosturadas poderiam ser consertadas. Ofereci agulha e linha, mas também, ninguém quis. As casas poderiam ser mais limpas, em melhores estados de conservação.

Havia uma pousada (que lá eles chamam de Resort) sendo construída bem em frente a vila de Mbili. Conhecemos o dono (associado com um australiano) e perguntei se ele havia encontrado alguém disposto a trabalhar na pousada. A resposta foi: Ninguém! – Mais difícil do que conseguir um sócio,  construir o Resort, captar clientes, será conseguir fazer esse povo trabalhar.

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20141007_132841Casa do Paul.

A esposa do Paul que era um amor, usava brasa de casca de coco para cozinhar, o que deixava as panelas pretas, mas as panelas dela eram limpíssimas areadas com areia. Fiquei até com vergonha das minhas Smiley virando os olhos

IMG_9662A esposa do Paul, com filhos e sobrinhos.

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Ela também fazia descanso de panelas e bolsinhas com uma planta natural das ilhas. Primeiro ela tirava os espinhos da folha e colocava para secar. Depois de secas, ela tingia usando outros materiais naturais que esqueci (repórter de araque), e fazia rolos da palha seca e tingida. A matéria prima estava pronta.

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20141013_131206Trançando a bolsinha de palha.

Os homens faziam cavas que sem brincadeira, no ritmo deles tartarugas seriam um leopardo! Agora, pressa pra que né?!

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Praticamente em todas as casas haviam pequenos painéis solares que os nativos pensavam fazer milagres. Quase todos com algum problema. Fausto que já não gosta, entrou em ação, e saiu consertando. A maioria eram problemas nos fios elétricos (ainda bem tínhamos de reserva) ou nas baterias, que ele não podia fazer nada. No geral, o saldo foi positivo. 

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20141013_130858Olhem a camisa furada do Fausto no ombro. Tentávamos nos adequar a vila.

Reparei que a maioria das crianças eram catarrentas. Muitas com o nariz escorrendo e chupando dedo, delícia! Perguntei a esposa do Paul e ela me disse que era normal até uns 10, 12 anos. Imaginem seus filhos catarrentos até os 12 anos? Lembrei-me de um francês que morou por muitos anos em um país africano e ele me disse que um costume local era que quando um filho ficava doente com o nariz escorrendo a mãe, “espremia” o nariz do bichim (sabem como?!) e comia o catarro. Ecaaa! Eu vomitaria se visse uma cena dessa. Mas cultura é cultura!

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As crianças eram muito tímidas e quase não conversavam mas foram nossas sombras todas as vezes que íamos em terra. Essa pomba que a menina segura na mão tinha um canto igualzinho a uma mulher chorando, impressionante a semelhança. Ao nosso lado no fundeio havia uma ilha com várias delas, e todo fim de tarde, as pombas começavam a “chorar”. Apelidei de ilha das pombas tristes.

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Saíamos para passear de padlle ou fazer snorkel. A água era tão clarinha que nem precisávamos cair na água, dava para ver tudo de cima da prancha. Depois dentro do laggon, a visibilidade do fundo era de uns 7 metros, vendo de cima do barco.

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PA120079A imagem ficou turva, mas posso dizer que encontrei o Nemo!

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O que é o que é um pontinho preto com duas anteninhas dentro d’ água? O Faísca fazendo hidroginástica! Smiley sexy

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Essas fotos na água foram tiradas com minha câmera veinha, que nem HD é. E todas sem filtro.

Semana que vem têm mais sobre as Salomões,

Guta

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