domingo, 14 de junho de 2015

Dia-a-dia em Jayapura-Indonésia 2

O tempo passava e nada do CAIT ficar pronto. Para piorar, a Capitania dos Portos mandou que saíssemos do único fundeio possível porque um navio cheio de carros de guerra etc.. chegaria para uma exposição na cidade. O governo está investindo mesmo no setor bélico e faz exposições por toda Indonésia.

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Acabamos indo parar no costado do Argentino que já estava encostado no barco da marinha local. Estava muito bom para ser verdade e o que não sabíamos é que dias depois, umas três lanchas em exposição, levariam a população para um passeio pela baía, e os caras mandavam ver nas lanchas. Faziam marolas enormes, e em uma delas o Argentino bateu com muita força no seu costado de bombordo e quebrou seu guarda mancebo, do nosso lado, bateu em nosso fusil e chegou a entortar um parafuso. Tínhamos que sair dali, se não destruiríamos os nossos barcos com tanta porrada. 

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Acabamos sendo mandados para um bairro chamado Docs Milan, considerado um bairro perigoso, praticamente uma favela. Um veleiro Neo Zelandês que havia perdido o mastro, passou por Jayapura, fundeou nesse bairro para fazer o conserto do mastro e foi assaltado. Bem, não havia outra alternativa além rezar para que nada de ruim acontecesse conosco.  Logo no caminho, quando começamos a passar pelos casebres conjugados a beira da água foi arrepiante. Imaginem todos os moradores saindo de suas casas e gritando: Mister, mister! Acenando! Pulando! Crianças, jovens, adultos! Não sabíamos para onde olhar, para quem acenar, de tanta gente que nos gritava. Uma loucura! A recepção foi maravilhosa!

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Ficamos a contra bordo do Argentino novamente em uma doca de um estaleiro meio que falido. Era tranquilo passar pelo estaleiro e pegar uma van para irmos até o centro. Na verdade ficarmos nesse bairro foi muito mais legal do que no centro. Tinha vários mercadinhos, lojinhas, restaurantes, crianças, muitas crianças que estavam de férias, então nós fomos a atração. O Faísca ia a loucura!

20150114_173302Nessa foto o veleiro Argentino Club já havia partido.

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Como era véspera de Natal e ano novo, qual era o “tchã” dos nativos? Soltarem bombas. Quanto mais alto o barulho melhor. Todos os dias depois do expediente havia uma espécie de competição entre os bairros, e ainda bem que o Faísca não tem medo do barulho de bombas, se não, teria ficado traumatizado. Olhem a cara dos anjinhos e as “bazucas” em suas mãos. Os adultos usavam umas maiores ainda. Eles colocavam álcool, sacodiam e acendiam essa bazuca, com a pressão saia um barulho assustador. Tomei vários sustos, depois acostumei. Foi assim até o reveillon, com mais de duas horas de tiros de bazuca depois da virada.

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Começou outro problema. Em Jayapura não teríamos como abastecer de diesel. É proibido vender diesel nos postos de gasolina para estrangeiros por causa de atentado em Bali “500 anos” atrás e por causa do problema entre o governo da Indonésia e o da Papua (foi essa desculpa que nos deram). Agora ferrou de vez, porque a próxima perna de quase 900 milhas seria no contra vento e contra corrente. Acabamos descobrindo que nativos compravam o diesel nos postos e revendiam para nós. Seria a única alternativa, se na segunda leva de diesel não tivessem desaparecido com todas as bombonas do Argentino e com o nosso dinheiro, pagamento de 200 litros. Daí fomos conhecer a máfia para conseguirmos abastecer. Todos queriam tirar uma casquinha de nós, e o preço foi ficando cada vez mais alto. Achamos um absurdo as forças armadas não oferecerem esse apoio aos velejadores, um absurdo em um país imenso como a Indonésia você não poder abastecer. Descobrimos que teríamos que fazer um processo com um agente, para que ele conseguisse em Jacarta uma carta de liberação para compra de X quantidade de diesel. Nem preciso dizer que o preço dessa carta, além de demorada era alto. Começamos a ir de posto e posto perguntando se poderíamos abastecer e conseguimos um que depois das cinco da tarde, nos vendiam 200 litros por dia, pagando ao invés de 6,70 rúpias o litro, 8 rúpias por litro. Conseguimos um senhor com uma Van de transporte e começamos o trabalho de formiguinha, enchendo bombonas no posto, transportando para o barco e passando para os tanques. No final das contas de 8 rúpias, um gerente quis nos cobrar 12 rúpias, mas já tínhamos o suficiente para a próxima perna e mandamos ele pra China. Todos os velejadores que forem para Indonésia têm que saberem que terão que comprar bombonas para abastecerem e que ou terão que pagar propina nos postos ou para agentes do governo.

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20150111_173412As crianças sempre querendo ajudar.

Foi esse inferno em todos os lugares que passamos. Pernas com média de 900 milhas, contra corrente e completamente sem vento. Não esperávamos gastar tanto dinheiro em diesel. Foi um baque no orçamento. O argentino Sebastian optou em arriscar tentar novamente seguir pelas Filipinas, passando pelo lado norte de Bornéu, chegando em Singapura, rota onde teoricamente teria vento. Felizmente deu tudo certo para eles, velejaram direto. Nós depois do trauma do tufão, esquecemos essa rota por completo e fomos capengando, passando pelas cidades de Sorong, Ambom (possível abastecer com funcionários da marinha por 20,000 rúpias o litro!) até chegarmos em Bali. Foi difícil, gastamos muito mais que imaginávamos, mas valeu a pena, porque Bali, é praticamente um país a parte, e foi uma excelente experiência conhecermos essa diferença entre Bali e o restante da Indonésia. Até Bali, navegamos umas 1.900 milhas motorando, as vezes com 1.5 nós de velocidade devido ao vento e corrente contra.

PS: US$ 1 = 12,600 Rúpias.

Continua…

Até semana que vem!

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