segunda-feira, 1 de junho de 2015

Jayapura nosso primeiro porto na Indonésia

Nossa passagem pela Indonésia foi intensa, com muitas informações e histórias para contar!

Como já não iriamos  para as Filipinas a única alternativa seria continuar a viagem pela Indonésia. Com a nossa fuga da Micronésia (meio do caminho para as Filipinas) por causa da formação de mais dois tufões, resolvemos voltar para a Papua Nova Guiné, para uma cidade chamada Vanimo, fronteira com Jayapura na Indonésia. Sabíamos que para entrar na Indonésia precisaríamos de um visto (que poderia ser tirado na embaixada da Indonésia em Vanimo) e do CAIT, um tipo de visto para o barco poder navegar em águas indonésias. O CAIT seria o grande problema porque só é possível consegui-lo com agentes que trabalham em Jacarta ou Bali. Teríamos que ter acesso a internet para enviar a documentação necessária além de ter que esperar por até um mês para o documento ficar pronto.

Fomos na embaixada em Vanimo e explicamos a nossa situação ao cônsul que nos atendeu muito bem. Em Vanimo, não conseguimos achar acesso a internet, então não poderíamos dar entrada no CAIT. O cônsul entendeu que a situação foi uma emergência e nos deu o visto com a explicação de que fomos atendidos por esse motivo. Ficamos uns três dias em Vanimo e assim que o visto saiu, zarpamos para Jayapura. Umas 35 milhas que foram feitas com os motores, zero vento novamente.

Assim que chegamos em Jayapura não encontramos um fundeio com menos de 35 metros de profundidade! Na guarda costeira, vi que havia um veleiro de uns 40’ encostado a contra bordo de um barco da marinha. Começei a chama-los pelo VHF para pedir orientação de onde fundear. Ninguém respondeu. Sem alternativa, fundeamos em 35 metros de profundidade mesmo, com 120 metros de corrente. Logo que terminamos a operação, fomos chamados pela guarda costeira para que desembarcássemos e fazermos os papéis de entrada. Nem nos deixaram respirar direito!

Fomos atendidos pelo Lucky. Ele era o único que falava um pouco de Inglês na guarda costeira, e foi muito simpático nos atendendo. Mas quando dissemos que não tínhamos o CAIT, foi um alvoroço. Explicamos tudo novamente, que passamos por um tufão na Micronésia, que entramos na Indonésia devido a uma emergência. Não demos entrada no CAIT em Vanimo porque não havia acesso a internet. Sabem o que queriam que fizéssemos? Que déssemos a entrada no CAIT em Jayapura e depois voltássemos para Vanimo e ficássemos esperando lá, até que o bendito saísse. Puta merda! Nesse momento, tudo que tínhamos para fazer no barco e estávamos enrolando, serviu de desculpa para não sairmos do porto. Estávamos cheios de avarias causadas pelo tufão. Precisávamos comprar peças, coisa que não poderíamos fazer em Vanimo (que não têm nada). Conseguimos a autorização do capitão dos Portos para ficarmos esperando em Jayapura até que o CAIT saísse. Alívio, mas só o começo da tortura. Fomos a alfândega, e depois de preencher trezentas folhas com as mesmas informações, foram ao barco fazerem uma vistoria. Normal e tranquilo. Depois seguimos para a imigração, o lugar onde pensávamos ser mais fácil, foi o que mais nos arranjaram confusão. Mesmo com o visto não queriam deixar que entrássemos no país porque não tínhamos o CAIT. Nem quiseram saber se tínhamos uma emergência, nos mandam embora, pronto e acabou. Fora o descaso de nos fazerem esperar por mais de quatro horas. Explicamos, explicamos, e quando falei que entraria em contato com a embaixada Italiana, a coisa toda se resolveu mas ao invés de nos darem 60 dias de visto, que seria o nosso direito, só nos deram 30 dias.

20141223_210326Fausto enrolado no enrolador. 

Quando fomos tirar o visto em Vanimo na embaixada Indonésia, perguntamos ao cônsul qual passaporte seria melhor para entrar no país, o Italiano ou o Brasileiro, só por questão de saber se teríamos alguma vantagem entre um ou outro. Ele nos respondeu que não havia distinção entre os dois mas que seria melhor para nós entrarmos com o Italiano. Na hora não entendemos o porquê, só um mês depois fomos descobrir…

Demos a entrada no CAIT com a Lytha, da PT.Kartasa Jaya (cait@indo.net.id), conhecida pela rapidez em conseguir o documento. Os outros agentes demorariam até três meses para entregarem o documento, com a Lytha,no máximo uma semana. A Lytha nos atendeu com simpatia , mas nos disse que infelizmente não poderia conseguir o CAIT em menos de um mês, como chegamos perto do Natal e ano novo, os ministros estavam fora de seus escritórios. O CAIT precisa ser assinado por três ministros: Turismo, um ministério de assuntos estrangeiros (pelo que entendi) e do transporte. Bom, então vamos esperar um mês! Mas o nosso visto pessoal (válido por três meses já estava “correndo”).

O funcionário da guarda costeira começou a arranjar um monte de probleminhas. Disse que a marinha queria saber quais as avarias que tivemos no barco, queriam ver fotos. Beleza, podem vir tirar fotos, e foram! Dias depois, mandaram a gente escrever uma carta explicando o que aconteceu conosco (com a localização exata de onde pegamos o tufão), que descrevêssemos as avarias do barco e em quanto tempo consertaríamos cada uma. Nisso todos os dias nos ligavam perguntando se o CAIT já estava pronto.  Passei um e-mail a Lytha explicando o assédio e ela nos enviou um CAIT temporário, dois ministros já haviam assinado, só faltava o ministro dos transportes. Esse CAIT provisório, seria o suficiente para que nos deixassem em paz. Na verdade o funcionário da guarda só nos deu sossego porque estava com o casamento se aproximando e ficava menos tempo no trabalho. Mas sempre que se lembrava de nós, nos dava uma ligadinha cobrando.

Nesse meio tempo chegou o Sebastian e a Sandra, os Argentinos, com o mesmo problema que nós, mas já havíamos avisado da chegada deles, e não tiveram tanta dor de cabeça. Inclusive na imigração, eles deram entrada e conseguiram os 60 dias de visto. Não falaram que haviam chegado de veleiro. Foram mais espertos do que nós, por sermos sempre “certinhos”  nos ferramos.

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Como o veleiro deles estava com um problema no guincho, acabaram encostando em nosso contra bordo, mas foi só entrar um ventinho que fomos os dois embora. O fundo além de profundo era uma lage. Ou seja, estávamos fundeados na camada de sujeira que havia. Quando levantamos a âncora foi que vimos a quantidade de sacolas plásticas e outras porcarias que havia no fundo. Lixo, esgoto, tudo ia para o mar. O capitão dos portos liberou, e o Sebastian foi ficar também a contra bordo do barco da guarda Costeira, junto com o Robin um canadense gente boa, velejador em solitário.

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O tempo foi passando, fomos fazendo os consertos que precisávamos fazer. Passou o Natal, o ano novo e nada do CAIT.

Infelizmente houve uma queda de avião no mar Indonésio e para o nosso azar, o ministro dos transportes trabalhou nas buscas (só se falava nisso na TV local), ou seja, o nosso CAIT não tinha previsão de sair.  

Enquanto estávamos em Jayapura e com o problema para renovar o visto, eis que para nossa infelicidade surge na mídia brasileira e indonésia, o caso do brasileiro condenado a morte por tráfico de drogas. Muito se discutiu nas redes sociais. Até eu cai na furada de “bater boca” com pessoas com opiniões tão imbecís.

A Indonésia e pelo que li, a Malásia também, têm pena de morte para tráfico de drogas. O brasileiro foi pego traficando. Depois de todas as apelações possíveis e com provas inquestionáveis foi marcada a data da execução. Acho que a presidenta Dilma ter ligado para o presidente indonésio Joko Widodo pedindo clemência é o papél dela fazê-lo. Agora, após o pedido ser negado, o nosso governo dizer que estudava formas de retaliação a Indonésia foi o fim da picada.   Total falta de respeito as regras do país. No mesmo dia que o traficante foi executado recebemos uma visita surpresa de dois oficiais da alfândega, ambos a paisana. E antes de conseguirmos o check out de Jayapura, nosso barco foi inspecionado mais uma vez (três no total).

20150117_113037 Todos somos avisados sobre a pena de morte por tráfico de drogas.

O último funcionário da Alfândega que foi nos inspecionar, falava um pouco de inglês, era filho de um indonésio com uma australiana. Esse cara nos disse que algumas pessoas “não religiosas” são contra a pena de morte. O porquê de “não religiosas”? porque lá, em  praticamente todas religiões (são muitas), eles são sim a favor. Traficante = diabo = morte. Então, o diabo têm que ser eliminado. Tudo que ele traz é a destruição e a infelicidade das famílias. Com relação a isso as religiões se entendem.  Como sempre existem opiniões contrárias,  o que o governo indonésio fez para pelo menos “abafá-las”?! Uma equipe de jornalistas indonésios foram ao Brasil na época da copa do mundo. Filmaram crianças assaltando adultos nas ruas, arrastões nas praias do Rio de Janeiro,  ruas cheias de craqueiros, bailes funk com jovens fazendo um pouco de tudo, enfim, filmaram tudo quanto é merda que existe no Brasil e fizeram uma reportagem especial que foi ar ar em rede nacional, pelo menos foi o que esse rapaz nos disse. Mostraram para a população indonésia um país dominado (verdade) e que está sendo destruído pelas drogas (e eu acrescentaria a corrupção também). Que maravilha! O Brasil sendo exemplo para outros países, um péssimo exemplo. Sem pestanejar a maioria da população vai continuar sendo a favor da pena de morte. 

Falou-se em retaliação, surgem imbecis nas redes sociais falando em guerra. Invasão a Indonésia. Não tô de sacanagem não. Um idiota comentou isso e logo em seguida contei mais de cinquenta pessoas concordando com a sugestão do sujeito inconsequente.  Essas pessoas desinformadas, não sabem que existem vários tipos de retaliação, a comercial por exemplo e logo vão falando em guerra. Mal sabem eles que caso houvesse uma, o Brasil perderia feio viu?! Pelo que vimos por lá, o presidente é eleito pela população mas administração é praticamente militar. O sonho de um jovem indonésio?! Entrar para a academia militar. Até programas de TV com  apresentadores fardados eu assisti.  Ser um militar é coisa séria. Ele faz a escolha de defender o país e praticamente não têm vida social. Não podem beber bebidas alcoólicas, não podem entrar em barzinhos (não vimos nenhum), não podem entrar boates, em prostíbulos ( também não vimos mas devia ter né hehehe!?). É a lei. E eles são fiscalizados por policiais a paisana, do tipo que adorariam “fritar” um militar, se é que me entendem.  A Indonésia têm um  total de 13.300 ilhas habitadas e a quarta maior população mundial. Um governo que investe bilhões no setor bélico e que está doido para ser cutucado com vara curta.

Assisti em um noticiário local, barcos de pesca enormes sendo explodidos e depois afundando. Perguntei um oficial amigo do que se tratava e ele respondeu que o governo Indonésio cansou de conversa fiada com os países vizinhos que não estavam respeitando os limites das águas indonésias para pesca. Agora se um barco da Malásia, Filipinas, Japão e qualquer outro for pego pescando em território indonésio, os pescadores são presos e só liberados após o pagamento de fiança, os barcos explodidos e afundados. O governo da Malásia se mostrou indignado e também falou em retaliação. A resposta dos indonésios: Cansamos de sermos desrespeitados. E se quiserem nos retaliar, seja de qual forma for, podem vir que estamos preparados. O governo da Malásia até aquele momento não se pronunciou mais…  A briga por comida já começou pelas bandas de lá.

20141219_065247Observem o tamanho dos peixinhos salgados…

20141219_065315Micro camarões

20141219_065306Como podem pescá-los tão pequenos?

O nosso CAIT não saia, e o visto que têm que ser renovado mensalmente estava para vencer. Mais problemas a vista. A comunicação era péssima, as atendentes falavam quase nada de inglês e o “chefe” que falava muito bem, não estava com a mínima vontade de resolver o nosso caso. O cara me deixava esperando por horas. Uma moça pegou nossos passaportes e sumiu. Depois de duas horas esperando fui saber que ela havia saído para almoçar e só voltaria duas horas depois, ou seja, eu ficaria pelo menos mais duas horas esperando. Rapaz, na hora meu sangue ferveu literalmente, e começei a bater na bancada pedindo meu passaporte de volta.- Cadê meu passaporte? -Eu quero meu passaporte de volta porque daqui vou direto na embaixada! Palavra mágica: Embaixada! Apareceu gente de tudo quanto é canto e nossos passaportes haviam sumido. A menina que os pegou não atendia ao telefone. Enfim, tive que esperar a VACA, voltar do almoço. E o pior, ela não sabia onde estavam os passaportes! Chegou a insinuar que eu não havia entregado nada a ela. Olha, eu cheguei a quicar de raiva! Só não voei no pescoço da criatura porque mais esperta, ela pocou fora. Depois de respirar fundo contando até 1000, pedi para falar com o chefe novamente, que muito a contra gosto (o cara fazia questão de demostrar má vontade) veio escutar-me e acabaram encontrando os passaportes. O infeliz não queria de jeito nenhum renová-los sem o CAIT (mesmo eu mostrando o provisório) e nos mandou embora da Indonésia novamente. Bem, o que me recordo depois do “fora” foi que mandei o cara pra tudo quanto era lugar, em português é claro, e em inglês disse que conversaria com o Cônsul e com o capitão do Portos porque esse sujeito estava passando por cima de duas autoridades que eu acreditava serem superiores a ele. Anotei o nome do cara na frente dele, tirei uma foto (o que era proibido), fiz uma cena danada. Quando estava prestes a ir embora, o “chefe” me chamou de volta e disse que para eu renovar o visto precisaria de um novo documento, a SPONSOR LETTER, uma carta de algum agente se responsabilizando por nós, enquanto estivéssemos em território Indonésio.PALHAÇADA! Tipo assim, cada hora eles inventavam alguma coisa. Enviei um e-mail a nossa agente perguntando sobre a sponsor letter. Ela não entendia porquê deles não renovarem o visto, e disse que talvez não aceitassem a sponsor letter no nome dela e sim de algum agente local, nisso ela já me avisou que os locais seriam bem mais caros. A agente Lytha era muito gente boa, e nos mandou no mesmo dia a carta, caso eles não aceitassem, ela não nos cobraria. Felizmente a carta foi aceita e depois de quatro dias renovaram o nosso visto, errado! Perdemos quatro dias em um mês de visto. Pode parecer pouco mas pelas longas distâncias a serem percorridas em toda Indonésia, quatro dias era muita coisa. Mas daí, desistimos de tentar consertar.

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Continua…

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