domingo, 20 de dezembro de 2015

O Russo e o australiano azarentos

Segundo um dicionário da língua portuguesa que tenho a bordo a palavra AZAR significa má sorte, infortúnio, acaso, casualidade. Alguns velejadores, alguns não, a maioria dos velejadores não saem de um porto na sexta-feira porque segundo não sei quem, dá azar, e todos que acreditam nisso, quando saíram do porto na sexta-feira se ferraram por algum motivo. A coitada da sexta-feira (um dia que todo mundo parece adorar) foi a desculpa/culpada. O cara esquece de abastecer o barco de diesel, sai velejando, o vento acaba, quando ele liga os motores não pega, a culpa? Caramba, hoje é sexta feira! Para mim isso se chama superstição. Penso que acreditar atraem tanto coisas ruins como coisas boas. Nós já perdemos a conta de quantas vezes saímos para o mar em uma sexta-feira e nada aconteceu, na verdade nem pensamos nisso.

Lembram-se do Russo que conhecemos na Malásia que não falava nadinha em Inglês? Sentem-se, que lá vêm história:

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Leonard comprou um monocasco em madeira de um outro Russo na Malásia, o barco têm 45 anos em perfeito estado. O cara estava muito satisfeito com a compra e da expectativa de uma vida a bordo. Detalhe: A comunicação era feita por gestos e com um tradutor no IPAD. Ele estava a bordo somente há uma semana e tinha pouquíssima experiência (não deve ser nada fácil velejar na Rússia). Uns três dias depois de nós, chegou outro catamarã com um australiano velejador solitário vindo da Tailândia. Ele havia ficado mais de 10 anos navegando entre a Tailândia e a Malásia. Iria preparar o barco para participar de um cruzeiro, com outros veleiros que sairiam juntos de Singapura rumo a Austrália, dentro de um mês.  Um belo dia, saímos nós e o australiano para terra e entrou um pirajá, comum por lá naquela época. Os pirajás entram com ventos de 30 nós e chove muito, quem viu esse vídeo AQUI, teve uma noção. O Russo estava a bordo na hora do pirajá e disse que o catamarã australiano estava garrando (se soltando) e indo para cima do píer da marina, ou seja, um acidente eminente. Tentou pedir ajuda na marina, mas ninguém entendeu né?! Pegou seu dingue (bote/barquinho de apoio) para ir até o catamarã mas no meio do caminho, com as ondinhas provocadas pelo pirajá, o dingue virou e ele perdeu o motor de popa novinho que só tinha três dias de uso. Acabou que a âncora do catamarã se realmente garrou (soltou)  acabou agarrando (segurando) sozinha novamente e o Leonard se estrepou. Isso sim é azar! Depois ele ficou mergulhando por dias tentando encontrar o motor de popa, mas com aquele fundo de lama e lixo teria que ter muita sorte para encontrar.

Ficamos morrendo de dó, mas nada podíamos fazer. O Australiano se sentiu culpado e ficou ajudando o russo no mergulho, mas não adiantou. Calma que ainda não acabou. Prestaram atenção no título? Dias depois entrou outro pirajá, daqueles super powers com direito a raios e trovões, a noite. Estávamos no cockpit observando, quando um raio caiu ao lado do catamarã australiano. Na hora é estranho, um clarão, o catamarã ficou envolvido por um clarão. Fausto comentou: Caiu no australiano! Só que a luz de top do mastro dele continuava acessa, então achamos que ele teve a sorte de não ter sido atingido pelo raio que aparentemente caiu tão perto. No dia seguinte lá vem o australiano branco feito vela, triste da vida, dizendo que um raio caiu em seu barco e ele havia perdido tudo. Provavelmente o raio que vimos! Gps, radar, sonda, até os dois motores não estavam dando a partida. Somente a luz de top não queimou, esquisito né?! O cara estava desolado. Isso é azar! O interessante é que conhecemos uns seis, veleiros australianos que tomaram uma “raiada na cabeça”. Em San Blás no Panamá, outro lugar com muitas tempestades de raios, quando recebíamos a notícia de que algum veleiro havia sido atingido por um raio, adivinhem, era australiano. Alguém comentou no face quando postei essa história que deveríamos ficar longe dos australianos. Vai que um raio daqueles errasse a pontaria?! Mas outra pessoa comentou que pelo contrário, para ficarmos perto deles. Que um para raio só funciona se ficar pertinho! Daí pensei, poxa, os australianos são azarentos? Alguém comentou: Caí mais raios em australianos porque são o povo que mais viajam pelo mundo, dificilmente veríamos um raio cair em um veleiro Boliviano por exemplo, ou seja, …, nem sei mais o que queria dizer, me perdi.

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Enfim, saímos ilesos da ancoragem azarenta, mas também temos os nossos dias. Hoje tenho um exemplo de azar “fresquim fresquim”. Estou escrevendo esse post de Richard Bay – África do Sul. Aqui não têm onde ancorar, somos obrigados a ficar em marinas ou em um píer público que raramente têm vaga. Quando chegamos no porto começou a entrar um vento do caramba de forte e acabamos encostando em um rebocador em reforma, um cantinho onde nos disseram que poderíamos ficar o tempo que quiséssemos. Poxa, que sorte a nossa! Uma semana depois, três barcos seguiram para Durban, o porto seguinte, tinha vaga de sobra, mas estávamos muito bem no nosso cantinho. No dia seguinte o píer lotou novamente com veleiros que haviam chegado a noite e o cara do rebocador avisou que teríamos que sair do lado dele, isso em três horas, porque outro barco usaria a vaga. Puta que…. Tinha vaga até ontem a tarde e o cara só avisou no dia seguinte de manhã, os veleiros entraram no porto a noite, merda, merda, merda! Que azar! Depois de um corre corre para encontramos vaga, cá estamos em uma marina, com a vizinha de boreste que tosse o dia todo e o vizinho de bombordo que implicou com os cachorros, melhor impossível!!! Odiamos marinas. Acho que isso atraiu a gente pra cá e com vizinhos tão maravilindos….

PS: Para quem chegou agora, nossos posts são programados, já estamos na África do Sul mas vocês estão lendo sobre a Malásia. Devido a dificuldade de conexão a internet para postagem no blog e vídeos no Youtube não consigo manter o blog atualizado em tempo real.

Até loguinho,

Guta

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