sexta-feira, 3 de março de 2017

Pós Viagem

Eu tive um sonho, vou te contar, imaginava pelo mundo velejar...

E foi possível depois de muitos percalços esse sonho realizar. Mas após quase quatro anos viajando e vivendo aventuras inimagináveis, dia pós dia, de volta a casa (Brasil), a vida a bordo “normal” não é tão legal.

Atravessamos o oceano atlântico na maior santa paz! Saímos de Simons Town na África do Sul e só usamos três horinhas de motor para passarmos pelo cabo da Boa esperança. Depois velejamos com a brisa e um mar tão calmo que me fazia duvidar, estava bom demais para ser verdade. E foi verdade,  até avistarmos a ilha de Trindade que pertence ao Espírito Santo. Daquele ponto até Vitória, velejamos em três dias o que normalmente se veleja em sete dias. Era como se a natureza estivesse contribuindo para chegarmos mais rápido em casa e matássemos as saudades da família, dos amigos, da comida do calor brasileiro. Sim, estávamos saudosos.
A ficha demorou a cair que o sonho havia terminado porque de uma certa forma ainda o vivíamos, cada vez que contávamos as histórias, as palestras que fui convidada a fazer. Essa foi uma parte ótima!   Dei palestras para crianças em escolas públicas e para entusiastas da vela. Foi muito bom receber as reações das pessoas a cada foto mostrada e os aplausos calorosos das crianças em uma palestra que nem consegui terminar. Depois de cada foto havia um haaaaaaa, o que fez atrasar um pouco as coisas. Foi prazeroso saber que alguns pais, no dia seguinte, foram a escola saber que história maluca era aquela que o filho estava contando, de uma moça que havia nadado com golfinhos e tirado foto com um tigre.
Dai com os bolsos furados, começamos a nos recolocar no mercado para trabalhar. Recomeço difícil, apesar da “fama” que tantos dizem que temos. Há quatro anos não havia crise e somente uns três catamarans faziam charter pelo Brasil. Hoje todo mundo pensa que fazer charter é fácil e estão tentando, aumentando a concorrência. Nos recolocamos e começamos a trabalhar, trabalhar e trabalhar. E é isso que basicamente fazemos hoje. Trabalhamos e juntamos dinheiro, mas não sabemos para quê!
Poxa Guta, vocês poderiam fazer outra volta ao mundo né? Verdade, aliás, dizem ser o ideal. A primeira volta ao mundo é a que nós realmente aprendemos a velejar, a navegar, a sermos pacientes, a respeitarmos a cultura dos outros, a não querer matar todo burocrata de uma figa (mentira isso ainda não aprendi). A segunda volta ao mundo seria a que a gente realmente aproveitaria: Sabendo as manhas, não perderíamos tempo e dinheiro em tais lugares, aproveitaríamos muito mais em outros. Mas fazer uma volta ao mundo atrás da outra  é um sonho praticamente impossível sem patrocínio. Então voltando a realidade, quando a ficha caiu que tudo acabou, fiquei deprimida, estou deprimida. As pessoas continuam a cobrar vídeos novos, perguntam quando o livro sairá! Mas quando começo a pensar a escrever me emociono. É diferente de contar para uma pessoa ao vivo, escrevendo parece que estou revivendo cada momento. Sinto o frio na barriga que tinha de cada saía de um porto e já tive verdadeiramente dor de barriga quando recordei os momentos difíceis. E recordar de tudo, hoje, não me faz bem. Evito lembrar, evito de uma maneira que já não consigo sonhar mais com as lembranças. E hoje, 10kg mais gorda (as saudades da comida brasileira foi “bem matata”) perdi o entusiasmo. E sinto um cadinho de inveja do entusiasmo de quem está começando agora na vida náutica, que tem percorrer todo o longo caminho até chegar lá. Seja somente “abandonando” tudo e vivendo a bordo, seja pensando em fazer uma longa viagem. O “lá” não interessa, o que interessa é a vontade de fazê-lo.
Agora, trabalhando aqui em Angra, parece que tudo ficou simples demais, fácil demais, tranquilo demais. Uma volta ao mundo não é fácil, simples, tranquila. Nos acostumamos com a adrenalina a nos preparamos para o pior, para resolver qualquer problema que aparecesse e de repente nada, somente calma.
Antigamente, ir até Recife para participarmos da REFENO (regata Recife x Fernando de Noronha) erá “a” viagem. Hoje seria como se fôssemos a esquina comprar pão. Sete dias direto dependendo do vento do Rio de Janeiro até Recife. O que são sete dias para quem já ficou 22 dias com o mar do cão, atravessando o pacífico, sem ver terra e ter contato com ninguém?!
 O máximo de emoção depois que voltamos foi arrastarmos uma poita com um vento de 30 nós, forte para os “padrões” brasileiros, mas normal para os padrões de fora, como o caribe por exemplo. Deu um certo trabalho conseguir colocar a poita no lugar e nos soltarmos dela. Rendeu gritos entre eu e Fausto, uma mão cortada, o coração saindo pela boca e alegria! Nunca imaginei ficar feliz com uma situação que poderia ter dado muito mal.  Loucura isso né? Agora, toda vez que vou pegar uma poita me enrolo, não sei se faço inconscientemente só para sentir aquela raivinha por não ter dado certo de primeira. Tô enlouquecendo, sim ou com certeza?

Como não podemos viver nessa apatia náutica, resolvemos seguir em frente com novos planos, que não serão realizados a bordo do Guruçá que está a venda. Mas até lá...

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Comentários
1 Comentários

1 Comentário:

Pedro I. disse...

Olá Guta e Fauto, tudo bem? Sou mais um dos que acompanham de longe a jornada de vocês. Sinto uma inveja da nada da capacidade inventiva do Fausto. Construir um veleiro, para mim, é uma façanha e tanto, ainda mais em se tratado do Guruça Cat, que é uma casa sobre águas.
Li esse post de desabafo e, por mais que da minha perspectiva (de alguém que ainda deseja fazer pelo menos 1/1000 do que vocês fizeram), acho que consigo entender o que estão passando. Deve ser algo semelhante ao que acontece com saltadores de paraquedas, que dizem ficar viciados na adrenalina.
Mas só tenho a agradecer por terem compartilhado as aventuras de vocês inspirando ainda mais os sonhos de liberdade.
Boa sorte para vocês onde quer que a vida os levem, só espero conseguir fazer um charter com vocês antes de se despedirem do Guruça.

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