quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Senta que lá vem história!

Oi, oi, oi povo do mar, tudo bem com vocês?

Como como sei que tenho muitos leitores avessos as redes sociais, estou copiando o que escrevo no facebook para cá. Prefiro escrever no face porque o feedback das pessoas vem na mesma hora e o principal, acreditem, não preciso escrever título. Sou péssima para escolher títulos e nesse post, perdi quase 10' e não me veio nada na cabeça.

Senta que lá vem história vocês já conhecem. Bom para passar o tempo rsrsrsrs

Há muitos anos, estávamos fundeados com o Cat Guruçá, azul, 62 ' em frente a Vila do Abraão, na Ilha Grande (Angra dos Reis - Rio de Janeiro). A bordo duas irmãs do Fausto, cunhado, sobrinhas e uma amiga da família. Havíamos tomado banho, jantado e fomos para cama dormir enquanto o restante da família papeava na sala. Verão. Um calor do cão. Assim que Fausto abriu a gaiúta (como chamamos as janelas de um veleiro) entrou um bafo de vento forte e quente. Foi engraçado que na mesma hora nos olhamos e pulamos da cama correndo para sala. Fausto já foi para o timão e eu atrás do meu kit emergência (óculos para miopia e luz de cabeça). Não me recordo se estava com os cabelos compridos, caso positivo, devo ter prendido o cabelo (causa de muitos acidentes a bordo e quase ninguém fala).
Uma das irmãs do Fausto, estava com a gaiúta da sala aberta: - Que ventinho bom para secar o cabelo, disse ela.
Eles não tem a noção do que está por vir, pensei. Na verdade, nem eu esperava as fortes emoções que teríamos naquela noite, porque sim, os perrengues só acontecem a noite.
Liguei o rádio no canal 16 e foi uma agonia. Várias pessoas pedindo ajuda porque seus barcos estavam garrando (se soltando) com o vento que estava em torno do 35 nós. Fauso pediu para que todos a bordo ficassem de olho, nessas horas é bom que a tripulação, mesmo sem nenhuma experiência participe e assim não entre em pânico. Manter as pessoas ocupadas é o melhor a se fazer. O maior perigo em uma situação daquelas era se algum outro barco garrasse e viesse para cima de nós.
Fausto mandou que todos ficassem de olhos abertos, mas o que funcionou muito bem foram os ouvidos da nossa amiga.
-Fausto, tem alguém gritando HELP!
Barulho do rádio, do vento (que já estava em 45 nós nas rajadas) dos estais de outros veleiros (som que especificamente odeio), uma bagunça.
-Sim, tem estou ouvindo um HELP, disse Fausto.
- Gutinha, pegue a lanterna grande! Rápido!
E assim Fausto começou a iluminar o breu na nossa popa, de onde parecia que vinha um pedido de ajuda. No mesmo instante vimos um bote, que com o vento forte não conseguia ir adiante.
A partir daí meus queridos, eu me arrepio até de lembrar.
Haviam duas mulheres, quatro criancinhas e o marinheiro no bote que quando viram o nosso barco começaram a gritar desesperadamente. O marinheiro acelerava e as ondas + o vento quase viravam o bote. Eles gritavam de lá, nós de cá. Fausto gritou para que o marinheiro tocasse o bote devagar, sem acelerar até que a rajada passasse. Foram uns dois minutos de agonia que pareceram uma eternidade. O cara conseguiu chegar na nossa popa e Fausto pegava as crianças pelo braço como se fossem bonecos e literalmente os jogava para dentro, antes que outra rajada entrasse. As crianças assim que chegaram a bordo vomitaram, tremiam choravam. O marinheiro parecia bêbado, mas não, ele estava em estado de choque.
Mais calmos, demos banhos nas crianças, tiramos as roupas molhadas e as colocamos em colchetes na sala. Quentes e protegidas. Elas simplesmente apagaram, dormiram em segundos.
Fizemos um café para o marinheiro que olhava para o nada. Ele falava sozinho, como se tentasse entender o que havia acontecido. 
Uma das mulheres, mãe das crianças, era australiana. A outra, tia, americana (EUA) que morava em São Paulo. Ela havia alugado uma escuna para passear pela região com a família do irmão. Estavam na vila do Abraão (em terra) quando começou a ventar, então decidiram ir embora para a escuna, mas como não cabiam todos no bote, mandaram as mulheres e crianças irem primeiro. Só que o vento aumentou de intensidade muito rápido e a escuna que eles estavam, foi um dos barcos que garraram. O marinheiro quando chegou onde o barco deveria estar não o encontrou, decidiu voltar para terra, mas se não fosse a gente no meio do caminho, uma tragédia poderia ter acontecido.
Terminou?
Nãaaao meu povo!
A americana queria avisar ao irmão (que estava desesperado em terra) que elas estavam bem e a bordo conosco. Mas se hoje o sinal de telefone na Ilha Grande já é ruim, imaginem há uns 10 anos como era? Péssimo!
Rádio VHF craudiado de pedidos de socorro e um babaca resolveu colocar o hino do Flamengo inutilizando o rádio para todos. 
Entre várias ligações, a americana conseguiu falar com o irmão, que havia pedido ajuda aos bombeiros e já estava a bordo da escuna, procurando pela família.
O cara avisou (não pediu) que iria parar a contra bordo e Fausto não permitiu. Não colocaríamos o nosso veleiro em risco desnecessariamente.
O cara teimou que queria buscar os filhos!
Ô filho duma égua (pq foi isso que pensei) deixa o vento passar, as crianças estão dormindo, não tem mais perigo, amanhã é outro dia, mas não. O cara pediu que o marinheiro, que estava na lua, coitado, fosse para a escuna, que havia fundeado (errado) bem na nossa proa, com o risco de de pegar nossa corrente.
O marinheiro foi e trouxe o "super men" que entrou sem pedir licença já brigando com a irmã. Bateção de boca e a irmã não queria sair do nosso barco. A mãe das crianças muda.
O cara acordou as crianças e começou a evacuação, porque era o que parecia. Que havíamos sequestrado a família dele!
Gritos, choro, uma confusão geral.
Fausto ordenou que não nos metéssemos.
E lá foi o cara embora, sem dizer um obrigado.
É nessas horas que tenho certeza que temos anjos da guarda nos iluminando. E literalmente Fausto foi o anjo que pegou a lanterna e foi iluminando o caminho do bote até a escuna, que quase chegando o pior aconteceu.
Ainda ventava forte, ondas e em um segundo o bote virou. Todo mundo dentro da água. Me recordo de ver os bracinhos das crianças sacudindo. Alguém na escuna começou a puxar um por um e Fausto do lado de cá iluminando. O restante da nossa família com o coração na boca. Eu já não tinha mais voz para tanto grito. 
Todos foram resgatados pela pessoa a bordo da escuna.
Na mesma hora levantaram âncora e sumiram na escuridão.
Nunca mais tivemos notícias.

Essa foi uma das várias histórias reais que presenciamos durante o tempo que moramos a bordo, causado principalmente pelo despreparo e arrogância. 
Uma série de erros que poderiam por duas vezes ter causado uma tragédia.
Quer alugar um veleiro/escuna/lancha?
Procure saber sobre a experiência do capitão/imediato/marinheiro. Experiência é fundamental para que em uma situação como essa, sejam tomadas as decisões corretas.

A foto abaixo já é do nosso atual, o amarelo, Guruçá Cat em um vento de 50 nós em Bali - Indonésia. Eu estava sozinha a bordo quando meu vizinho James mandou essa foto que ele tirou a bordo do catamarã dele.. Foi sinistro, mas essa já é uma outra história, que acho, já contei aqui!
Coloquei a foto só para vocês terem uma noção do vento.



PS: Não reparem os prováveis erros de português. Escrevi rápido, como sempre, para esvaziar a cabeça que teimava em relembrar essa quase história de terror.

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E vocês, que título dariam para essa história?

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