quarta-feira, 18 de abril de 2018

Histórias da vida no mar

E aí povo do mar, tudo bom?

Estou escrevendo o livro da nossa viagem de volta ao mundo e dia sim e outro também quase tenho ataques de pânico por me sentir tão perdida com tantas informações. O pior é que sou mentalmente desorganizada e quando tento focar no livro da viagem, a cabeça começa a pensar em um dos outros três livros que rascunhei. É como se fosse uma alto sabotagem, porque escrevo um monte, mas a sensação é de que nada vai para frente.

Na construção do Guruçá Cat, em vários momentos a gente trabalhava por dias em uma peça, mas o trabalho não aparecia, e a gente ia desanimando quando não víamos o resultado do trabalho. Daí Fausto sabiamente pulava para uma outra peça mais simples que ficava pronta rapidinho e o ânimo voltava.

Não estou conseguindo adaptar essa “psicologia” que ele usava na construção para minha situação atual: Perdida, cheia de incertezas, sem saber como me organizar e o que fazer primeiro. Infelizmente não tenho nenhuma “peça” que fique pronta rapidinho. 

Agora por exemplo, abri o computador e ao invés do livro, estou aqui, choramingando para vocês.
Ontem, tentando dormir, porque tem dessa também, estou caindo de sono, mas a cabeça teima em pensar e enquanto eu não descarregar o pensamento, não durmo ou durmo mal.
Ontem, recordei de duas histórias legais que passamos durante todo esse tempo morando a bordo. São tantas histórias, que olhem só, renderia outro livro!

Aprendi a não aceitar convite de qualquer refeição de velejadores solitários. As minhas experiências com velejadores solitários estrangeiros foram de barcos sujos e fedorentos.
Aqui no Brasil somos muito festeiros e adoramos convidar outros velejadores para o nosso barco, mas lá fora não é assim. Principalmente com europeus. Eles são muito reservados, aceitam  prontamente a um convite ao seu barco, mas raramente te convidam de volta. 
Na nossa viagem preferimos nos relacionar com famílias, não temos filhos, mas tínhamos o Faísca, um cachorro, que praticamente nos tornava uma família e nos aproximava das outras. As crianças o adoravam! Contamos nas mãos os veleiros que nos relacionamos de “verdade”, de um ir ao veleiro do outro, mas não sentimos falta nenhuma desse tipo de relacionamento. O nosso propósito era conhecer os lugares o povo, suas culturas e não ficar tentando fazer amizadinha com o vizinho temporário.

Então foram poucos os velejadores solitários que nos relacionamos, amém!
Não vou dizer a nacionalidade de ambos, só para rolar uma curiosidade hehehe

O primeiro morava em um monocasco com a boca bem grande (largo) e uma decoração interessante: Era cheio de almofadas coloridas, tecidos tipo cetim, me fez imaginar um quarto de um sultão, cheio de pompa. Sujo o veleiro não era, mas o cara não gostava de banho e não tinha uma mulher para obrigá-lo a fazê-lo. Ele só tinha duas camisas que se não estivessem bem presas no varal, fugiriam nadando de tão surradas e mal lavadas, ou seja, rolava um cheirinho de urso a bordo (creio que urso seja fedorento).

Dentro do veleiro, ele armou a mesa que estava na forma de cama, alguns veleiros pode-se usar de ambas as formas e colocou uma panela de pressão no centro. Disse que havia aprendido a receita quando passou por Salvador... Pensei: Ai-Meu-Deus!
Quando abriu a panela, quase cai dura. O cara havia feito um tipo de feijoada, que como ele mesmo disse: Na comida baiana não pode faltar cominho e leite de coco né?! Não sei de onde ele tirou isso! Feijoada com leite de coco, Gzuis, como me safo dessa?
Reclamei do calor,  que estava ficando enjoada dentro do monocasco e pedi para comer do lado de fora. Dei uma de atriz, porque olha, fingi que comia tudo e ainda elogiava, só que a minha parte os peixinhos comiam, cada vez que o cara entrava para pegar alguma coisa que eu inventava: Uma faca por favor? Tem guardanapo? Velejador solitário não liga para esses detalhes. Mais difícil do que fingir, era não rir da cara que Fausto fazia cada vez que dava uma garfada. Pela primeira vez achei que Fausto não iria comer alguma coisa. Assim que chegamos em casa Fausto começou a reclamar, enfiava o dedo na guela querendo vomitar. E ele ficou puto quando soube que eu não havia comido nada.
- Bem que achei estranho você tão quieta!

Fausto, não vou mais almoçar ou jantar em nenhum barco de velejador solitário, nem adianta ficar falando na minha orelha...

Até que apareceu um colega que ele não via há anos…

- Não vou, vai você sozinho!

- Você é a minha esposa, quero que ele te conheça nhê, nhê, nhê e a boba aqui cedeu.

Ficamos no cockpit (a varanda do barco). Fausto tomando uma cervejinha e eu uma coca cola, mas já preocupada com o que iria ser servido. Não aguentei e perguntei.
- Pasta com molho foi a resposta. Fiquei mais tranquila, até sentir uma coisinha andar pelo meu braço. Olhei , mas não achei nada. Estava escuro. Coloquei meu braço apoiado na mesa e senti outra coisinha. Olhei e nada! O seu fulano, o senhor pode acender a luz? O cara enrolou e não acendeu. Recolhi meus braços e fiquei quieta. Quando o jantar começou a ser servido, a luz foi acessa e eu nunca havia visto tanta baratinha em um só lugar na vida! Haviam várias correndo pela “casa”. E o velejador agia como se nada estivesse acontecendo... Eu não tenho medo de barata, mas dá nojo comer com um monte delas passeando na sua frente. Pedi licença , peguei meu chinelo no bote e começei a matar as baratas que chegavam perto de mim. Cara de pau por cara de pau né? Daí começei a pensar nas baratas que haviam passado em cima do prato que estava na minha frente, na panela em cima do fogão e fiquei embrulhada. O cara não saia da mesa e não adiantou eu dizer que estava esperando meu prato esfriar (na primeira virada de rosto do velejador iria tudo pra água) que o cara ficava falando: Experimenta, experimenta! Aff, não teve jeito. Coloquei a primeira garfada de espaguete na boca. Puta merda, era pimenta pura! O tal molho era a mistura de várias pimentas. Haaaa vá a merda! Comer pimenta cheia de baratas já era demais para mim. Reclamei pro cara na boa, que era muito apimentado, que eu não comia pimenta e devolvi o prato. O velejador fez uma cara de mendingo chateado saído direto do filme Os Miseráveis, e eu nem tchum! Ele deveria me agradecer por eliminar pelo menos umas 100 baratas do barco dele, isso sim. Hoje, pensando bem, eu deveria ter dado de uma mulher “normal”, ter gritado quando tivesse visto a primeira barata e corrido para o bote. Teria me poupado do climão.

20140317_064138-1

Comentários
4 Comentários

4 Comentários:

Marilene disse...

Guta
Que maravilha, resolveu escrever!!!
Seus relatos são sempre muito bons, descritivos. Você consegue fazer com que a gente veja a cena perfeitamente.
O dia que vc estiver com muita preguiça de escrever, grave. Depois vc organiza.
Esses dois “causos” foram realmente inusitados. Doida p ver esse livro sair do forno.
Parabéns !!!!👏👏👏😘

Patricia Scarpi disse...

Vida de velejador não é fácil rrss. Eu adoro receber amigos em casa e ser convidada também...mas o encontro tem que ser algo agradável e não essa tortura promovida por esses velejadores solitários!!!!

Anônimo disse...

Hahahahhaa adorei o post! Já vou ficar esperta ! Ri muito !

Duda Falcão disse...

cozinhar é uma arte não dominada por todos mas higiene é fundamental e quase una questão de saúde. Faria o mesmo é quanto as batatas na boa iria embora na hora.

Postar um comentário

Estamos viajando e não temos uma conecção a internet fixa a bordo.
Por esse motivo, certamente seu comentário demorará a ser postado, poderá não ser respondido, mas será lido.
Se ainda assim, quiser comentar fique a vontade!